Rua do Medo: 1994 - Parte 1

Crítica: Rua do Medo: 1994 – Parte 1

3.5

Toda trilogia precisa de um começo! Aqui não seria diferente. Adaptação homônima da saga escrita por R.L. Stine, a parte 1 de Rua do Medo procura ambientar o espectador em seu universo ficcional, apresentando tudo que pode. A começar pela lenda da bruxa Sarah Fierce, que cerca a cidade de Shadyside, passando por todos os brutais assassinatos que ocorrem desde 1666 – sim, temos o número da besta no início de tudo e isso não é à toa* –, chegando também no desgosto pela cidade com Sunnyside. São muitos elementos e detalhes, que vão sendo revelados progressivamente, mas o grande ganho da obra é justamente sabe dosar o momento de revelar cada informação, deixando cliffhangers para as suas continuações.

É bem verdade que o primeiro longa-metragem de Rua do Medo exagera um pouco na sua serialização. Em alguns momentos, o espectador pode esquecer que se trata de um filme e pensar estar vendo uma minissérie. Um exemplo que ilustra esta sensação é o seu desfecho, no qual o público se depara com uma espécie de trailer da sua continuação. Esta linguagem mesclada não compromete a totalidade da produção, porque ela se sustenta em outros elementos, porém, gera certo incômodo, por não conseguir encontrar um tom coeso de narrativa cinematográfica. É dentro desta lógica que algumas de suas características fomentam a qualidade da experiência.

O que chama atenção mais rapidamente é o desenvolvimento da protagonista. Deena (Kiana Madeira) é mostrada, no início da projeção, como uma típica adolescente rebelde, inconformada com as injustiças presentes na sociedade e machucada com o final de seu relacionamento amoroso. Apesar de possuir uma personalidade clichê teen, a sua relação com Sam (Olivia Scott Welch) complexifica a sua jornada, seja nos instantes em que Deena necessita tomar decisões que vão transformar o rumo da trama ou quando vemos sensibilidade e fragilidades que ela procura esconder a todo tempo transbordando em seus gestos e falas. Neste jogo entre ser uma garota durona, mas revelar emoções delicadas, um olhar sob Deena é colocado, junto com todo o desenrolar de terror slasher sangnolento que já se esperava.

Rua do Medo: 1994 - Parte 1

Neste sentido, os coadjuvantes que a cercam também contribuem para o entendimento maior sobre a Deena, bem como sobre Shadyside e seu passado trágico. Tanto na dupla de amigos Kate (Julia Rehwald) e Simon (Fred Hechinger), como no irmão mais novo de Deena, o Josh,  (Benjamin Flores Jr.), as ações da heroína/mocinha badass e o desvendar dos crimes da cidade são frutos da colaboração desta equipe que se une, apesar das brigas e distanciamentos que aconteciam quando o conflito central se inicia.

A forma como os roteiristas não eliminam as suas vidas facilmente também acrescenta ao clima de suspensão e tornam os plot twists mais intensos, como é o caso da sequência do supermercado, momento decisivo para a trajetória do grupo, um clímax bem trabalhado, porque convoca idas e vindas na resolução do problema principal, desviando a atenção de quem assiste e trazendo duas mortes surpreendentes. Isto faz com que a obviedade presente neste subgênero se dilua, contribuindo para uma experiência divertida.

No geral, pode-se dizer que Rua do Medo: 1994 – Parte I é uma boa abertura para a nova franquia da Netflix. Neste terror slasher adolescente, passado nos anos 1990, talvez, existam algumas questões que saiam do prumo, como a própria caracterização da década – que é impressa com as músicas e nos figurinos, porém que não traz um tom específico das projeções que se passam no período, como Eu sei o que vocês fizeram no verão passado ou Pânico – e por apostar demais num formato de seriado, obrigando o consumo de 1978 e 1666. Contudo, a diversão pode ser garantida pela presença de figuras carismáticas, um mito sedutor, que cria curiosidade e um equilíbrio entre mortes, desvelo das situações e relacionamentos fortes.

Direção: Leigh Janiak

Elenco: Kiana Madeira, Olivia Scott Welch, Julia Rehwald.

Assista ao trailer!

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