O legado de Richard Donner

No mês de julho, o cinema mundial perdeu Richard Donner, diretor estadunidense que faleceu aos 91 anos de causa ainda não revelada. Há quem não saiba, mas é importante marcar a passagem do diretor destacando o quanto Donner foi uma figura importante entre os realizadores de Hollywood, atuando sobretudo na década de 1980 com títulos que seguem como referência na produção de gêneros cinematográficos populares por sucessivas gerações.

É impossível, por exemplo, falar da febre atual de filmes de super-heróis de quadrinhos e não lembrar de Superman: O Filme (1978) como um marco para essas produções ou mesmo não citar a aventura juvenil Os Goonies (1985) diante de fenômenos como a série Stranger Things. Um dos traços marcantes do cinema de Donner é que o realizador sempre procurou estar junto da audiência, sem que isso significasse um esvaziamento das suas ambições artísticas. Assim, Donner buscava algum traço de originalidade em histórias supostamente pasteurizadas pela recorrência com as quais eram produzidas. Como consequência, apontou tendências que se tornaram lucrativas para os estúdios e são replicadas pelos seus sucessores como marcas de subgêneros que ajudou a moldar.

Com o seu recente falecimento, talvez seja interessante relembrar suas principais realizações cinematográficas e destacar como cada uma delas ecoa na indústria até hoje:

A Profecia

A Profecia (1976)

Baseado no romance de David Seltzer, o terror estrelado por Gregory Peck se tornou um dos filmes mais cultuados do gênero na década de 1970, período que também consagrou O Exorcista (1973) de William Friedkin, um marco que trouxe prestígio para o gênero, além de sucesso comercial. Donner deu prosseguimento ao filão junto com a Fox a partir da história de um casal que adota o filho de Satã, nascido no sexto dia na sexta hora do sexto mês, cumprindo precisamente a profecia sobre o anticristo. A Profecia abordava com complexidade e seriedade dramática o tema, confirmando o que estava em vigor na época. O longa rendeu continuações e um remake em 2006.

Superman

Superman: O Filme (1978)

Para muitos, o filme de super-herói definitivo e, certamente, a melhor versão do Homem de Aço para as telas. Richard Donner aceitou a incumbência de conduzir o seminal super-herói da DC Comics para as telas quando não existiam referências sólidas na indústria para esse tipo de produção. Lidando com muitos efeitos especiais, o diretor fez o feito de fazer um homem voar nos cinemas, mas apostou na reflexão constante que o herói tenciona a respeito daquilo que nos confere humanidade.

Como se espera de uma história do Superman, Superman: O Filme traz a abordagem ingênua e inspiracional de uma era de ouro dos super-heróis, um farol de esperança que em nada dialoga com a percepção cínica de um O Cavaleiro das Trevas (2008) do Christopher Nolan ou de um Homem de Ferro (2008) do John Favreau, mas que, sem o qual, os mesmos talvez não tivessem efeito. O longa ainda eternizou Christopher Reeve e Margot Kidder como a dupla Clark Kent e Lois Lane e segue como referência para super-heróis com abordagem semelhante como Capitão América: O Primeiro Vingador (2011) de Joe Johnson e Mulher-Maravilha (2017) de Patty Jenkins, que, inclusive faz citação direta a Donner com a cena na qual Diana salva Steve Trevor de uma bala nas ruas de Londres.

Donner dirigiu a sequência Superman 2: A Aventura Continua (1980) no mesmo ano que realizou o mesmo filme, mas a Warner descartou parte do trabalho do realizador e chamou Richard Lester para refilmar o trabalho. Não chegaram a passar constrangimento pois, mesmo com toda a polêmica, Superman 2 é uma sequência competente para o filme de 1978, mas claro que até hoje os fãs lamentam a decisão, tanto que é um dos casos que se tornaram célebres por ganhar anos depois, precisamente em 2006, uma versão do Donner em mídia física.

Richard Donner

O Feitiço de Áquila (1985)

O longa pertence ao boom de fantasias da década de 1980 junto com títulos como A Lenda (1985) de Ridley Scott, A Princesa Prometida (1987) de Rob Reiner e Willow: Na Terra da Magia (1988) de Ron Howard. O longa conta a história de um ladrão interpretado por Matthew Broderick, que se torna a única esperança de um casal amaldiçoado por um bispo. O cavaleiro vivido por Rutger Hauer nunca poderia consumar seu amor pela dama interpretada por Michelle Pfeiffer pois enquanto durante o dia ela se transformava em um falcão, durante a noite ele virava um lobo. O longa trazia uma mescla de aventura medieval e romance com inspirações em fábulas que deram o tom dessa produção na década.

Os Goonies

Os Goonies (1985)

No mesmo ano que trouxe para as telas O Feitiço de Áquila, Donner estreou Os Goonies, estabelecendo parceria aqui com outros três nomes importantes na década: Steven Spielberg, produtor e roteirista do filme; e Chris Columbus, que também assina o roteiro do longa e que anos mais tarde ganharia ainda mais projeção na direção de Esqueceram de Mim (1990), Uma Babá quase Perfeita (1994) e Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001).

Os Goonies encabeçava o leque de aventuras juvenis oitentistas que abordam a experiência de viver um início da adolescência com amigos catalisada por experiências fantásticas que estreitam esses laços de afeto, algo que ecoa nas obras de Stephen King como a franquia It: A Coisa (2016 – 2019) e também na cultuada série da Netflix Stranger Things. A história de Os Goonies traz um grupo de meninos que encontra um mapa do tesouro e são levados a fazer trilhas por cavernas, se desvencilhando de algumas armadilhas. O longa tornou célebre personagens como Sloth e também foi importante para impulsionar a carreira dos jovens Sean Astin, Josh Brolin, Corey Feldman e Joe Pantoliano.

Máquina Mortífera

A franquia Máquina Mortífera (1987 – 1988)

Com Mel Gibson e Danny Glover, Richard Donner dirigiu todos os longas da franquia de ação Máquina Mortífera, instituindo um tipo de filme de ação alicerçado na bem humorada química entre uma dupla de agentes aparentemente incompatíveis: o veterano à espera da aposentadoria vivido por Glover e o jovem impetuoso interpretado por Gibson. A dinâmica que Donner estabeleceu entre as personagens de Glover e Gibson seria uma espécie de “farol” para longas do gênero que procuraram instituir uma maior leveza em suas abordagens, o próprio roteirista Shane Black trouxe um pouco da verve de Máquina Mortífera para alguns dos seus trabalhos como diretor, entre eles Beijos e Tiros (2006) e Dois Caras Legais (2016). Com o sucesso comercial do primeiro filme, Donner dirigiu mais três sequências, finalizando seus trabalhos na franquia com Máquina Mortífera 4 de 1998. Os filmes foram tão populares que renderam uma bem-sucedida série de TV que teve três temporadas.

Richard Donner

Outros destaques da carreira de Donner e os últimos anos

Além dos trabalhos citados, cabe chamar a atenção para outros longas conduzidos pelo diretor que tiveram boa repercussão, como a comédia Os Fantasmas contra Atacam (1988), com Bill Murray; o western Maverick (1994), estrelado por Mel Gibson e Jodie Foster; e os thrillers Assassinos (1995), com Sylvester Stallone, Antonio Banderas e Julianne Moore, e Teoria da Conspiração (1997), onde o diretor trabalhou com Julia Roberts e, novamente, com Mel Gibson. Em todos esses longas, Donner confirma a constância do seu “faro” para tendências do seu tempo.

Nos últimos anos, infelizmente, o realizador acabou conduzindo trabalhos menos expressivos, como a aventura sci-fi Linha do Tempo (2003), estrelada por Paul Walker e Gerard Butler, que repercutiu de maneira mediana, ao menos para os padrões estabelecidos até então pelo diretor. O último filme dirigido por Donner, foi o longa de ação 16 Quadras (2006), com Bruce Willis no papel de um policial lidando com o alcoolismo. O longa teve uma repercussão positiva, mas nada que marcasse gerações, como foi usual na era de ouro do realizador.

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