40º Festival Internacional de Cinema de Mar del Plata: Dreams

40º Festival Internacional de Cinema de Mar del Plata: Dreams
0.5

Com a câmera parada e planos mais abertos, Michel Franco (Memória) convida o espectador a se conectar com a intimidade das personagens de Jennifer McCarthy  (Jessica Chastain) e Fernando Rodríguez (Isaac Hernández). A obra é um retrato curioso da visão de um mexicano sobre os Estados Unidos. Ainda que reforce estereótipos do corpo e dos sonhos do homem latino americano, Franco se revela confuso em investigar as camadas das suas personagens, em criar um roteiro dentro da lógica da narrativa clássica – que ele mesmo propõe – e ainda cai no clichê do male gaze em cenas de violência sexual. 

Existem muitas questões técnicas que serão declaradas aqui nesta crítica, mas é preciso salientar antes que, em pleno 202,5 não deveriam existir cenas que estetizassem o estupro. A maneira como o ato é perfomado na tela, transforma a possibilidades de diálogo sobre o mesmo. Ângulos, movimentações, ruídos, todos os elementos da mise-en-scène e do som constroem sentido. Com qualquer questão e tema isso se passa, sobretudo com encenação de ações violentas. É necessário pensar o male gaze e a violação do corpo feminino ainda hoje. Ainda.

Essa poderia ser uma obra sensual, que discute com força as relações entre gênero e poder. De certa maneira, o discurso fica posto, porém com uma cena de estupro gráfica sem necessidade e uma encenação que revela todo um desejo masculino por uma dominação feminina – algo clichê e desagradável. Mas, não são apenas esses breves minutos que condenam a produção de Franco ao fracasso – que inclusive pode agradar a muitos que se enganem fácil com algumas escolhas do roteirista e diretor.

Somente de pensar que Franco abre o quadro para criar tensão sexual entre o casal central já fica óbvio de compreender que Franco quer mais causar a impressão de que é um bom diretor, do que ser um bom diretor de fato. A discussão sobre a tensão de gênero e classe é bem-vinda, porém tornar ela fútil e “masculinizada” não ajuda no fomento da discussão da trama. Falta problematizar os sentimentos e as motivações de Fernando, deixar ele menos fútil e mimado. Seria necessário elevar a carga emocional de Jennifer, para que existissem nuances na construção dela.

Dentro desta lógica, as atuações quase chegam a convencer. Jessica soa distante, como se sua mente estivesse em outro lugar. Esse fator retira a sua expressividade facial, algo que é sutil em sua atuação, mas que funciona em outros títulos. Já Isaac, bom, ele dança bem. Todavia, mesmo que seja bastante esforçado, o máximo de emoção que o jovem consegue expressar é o de dúvida porque franzir o cenho ajuda.

Talvez essa seja a grande questão de Dreams. É tudo tão quase que o espectador pode sair esgotado da sessão. O casal central quase que tem química, a discussão política quase que é amarrada, a direção quase que é autoral e com um estilo que dialoga com o roteiro. Nesse quase, Jessica e Isaac procuram investir na fisicalidade dessa paixão doentia, fomentada pelo poder de uma mulher branca estadunidense mais velha, com um jovem bailarino mexicano em situação de vulnerabilidade social. 

Os intérpretes se deslocam e se tocam com tônus corporal, porém com ausência de sensibilidade. As falas soam vazias, porque não há força e gradação na forma de dizer o texto. Falta aqui explorar as camadas das condições psicológicas das personagens. Claro que brancos ricos são ambiciosos e controladores. Óbvio que um artista iniciante quer vencer em sua profissão. Esse tédio pelo óbvio ainda se reafirma na visualidade. Os tons pastéis, a câmera parada, os planos que são mais gerais e médios contribuem para essa sensação de ausência de personalidade.

Desta maneira, Dreams parece querer ser um retrato de uma paixão tórrida, com diferenças de idade, classe e gênero. Alguns debates estão presentes na narrativa e há uma tentativa de criação de universo ficcional plácido do mundo de ricos brancos do Norte Global. No entanto, a procura por revelar as especificidades desse mundo doente e usurpador de ideais acaba por deixar a obra morna e uma sessão entediante.

Direção: Michel Franco

Elenco: Jessica Chastain, Isaac Hernández, Rupert Friend

Assista ao trailer!