Bela Vingança

Crítica: Bela Vingança

4.5

Antes de escrever qualquer coisa sobre o filme, é necessário dizer que Bela Vingança não é uma produção fácil de assistir! Obviamente, sobretudo para as mulheres. Desde os primeiro minutos de projeção, entre os quadros elaborados, que dialogam com o espectador, e as músicas sarcásticas, que jogam com as situações em cena, é possível notar a força da história que será contada. A qualidade dos enquadramentos vêm de uma decupagem, que procura evidenciar as ações mostradas na tela. Ainda que, em alguns momentos, existam textos falados que entregam mais do que deveriam – pois reiteram o que já está na imagem -, majoritariamente, o longa procura transmitir os seus significados, tensões e ironias, através da direção.

O olhar de Emeralld Fennell (Killing Eve) – que também é roteirista da obra – é múltiplo e convoca o espectador para observar a mesma sequência por diversos ângulos, profundidades de campo e planos. Esta estratégia acaba por contribuir para a elevação da suspensão e para o reforço das emoções da protagonista e do que ocorreu e acontece com ela. Um exemplo é o diálogo entre Cassandra (Carey Mulligan, Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi) e Jordan (Alfred Molina, Vice). A cada corte seco, a angulação vai se transformando e o local de fragilidade e força entre as personagens intercambiando. Há uma tradução dos sentimentos postos na tela, como se Cassandra saísse superior deste encontro e Jordan com um pouco de redenção e perdão.

Através do uso de plano detalhe – não apenas neste momento de Jordan e Cassandra, mas como em toda a sessão -, Fennell revela as minúcias presentes na narrativa. Seja em um copo de bebida, na captura das microexpressões faciais de Mulligan ou na mão de suas personagem durante o desfecho da produção. Cada instante deste fomenta o que se desejar passar ali: as lutas cotidianas e extra cotidianas das mulheres oprimidas por esses homens brancos privilegiados, acostumados a saírem ilesos de seus crimes. Neste sentido, o roteiro de Fennell também favorece o resultado final da obra.

Bela Vingança

Ainda que desde o começo Bela Vingança seja extremamente forte em seu conteúdo – com menção à assédio sexual e estupro –, é possível notar como Emeralld Fennell distribui as revelações sobre o passado de Cassandra. As ligações dela com figuras do seu passado são apresentadas sem pressa. Existe, porém, apenas um exagero no tom de mistério. Já na metade da exibição, o espectador conseguir compreender o que se passou anteriormente, no período no qual Cassandra e sua melhor amiga estavam na faculdade. Talvez, o consumidor seja um tanto subestimado aqui, mas, apesar deste aparente desespero em criar dúvidas sobre a trajetória de Cassandra mais do que o necessário, não há um comprometimento na totalidade do filme.

Algo que acaba por segurar a atenção do público durante esta breve queda rítmica é a atuação de Carey Mulligan. Na criação de seu papel, ela equilibra a dinâmica de tons empregados em sua Cassandra. Indo de compaixão até frieza ou ódio intenso, Mulligan consegue modificar em poucos segundos as intenções textuais. Ela ainda trabalha com algo delicado, que é a aparente paralisação que Cassandra tem que performar quando está em contato com os predadores da trama. Neste contexto, através de pequenos gestos, ela revela as intenções e pensamentos de sua personagem, com intensidade, mas a partir de detalhes.

Desta maneira, Bela Vingança é forte em sua temática, mas acaba por dosar esta característica, pois traz delicadeza e cuidado em sua técnica.

Direção: Emerald Fennell

Elenco: Carey Mulligan, Bo Burnham, Alison Brie, Connie Britton, Adam Brody, Jennifer Coolidge, Laverne Cox, Max Greenfield

Assista ao trailer!

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