Atualmente em exibição na programação da HBO com sua segunda temporada, Big Little Lies propõe desde o primeiro ano um interessante exercício de percepção e julgamento. Um dos motes centrais da série roteirizada por David E. Kelley e dirigida por Jean-Marc Vallée (primeiro ano) e Andrea Arnold (segundo ano) é traçar uma análise sobre nosso comportamento em sociedade: como nos construímos para o outro, como enxergamos o outro, como eles realmente são e como essa falta de comunicação entre as percepções nos joga uns contra os outros gerando um estado de falta de empatia generalizado.

No caso das cinco mulheres de Monterey da série, esse ciclo é quebrado no instante em que todas se enxergam como realmente são (humanas, com seus defeitos e qualidades) e quando elas acabam compartilhando um segredo. A partir disso, propomos pensar como esse processo de construção e reconstrução de imagens (que se dá na trama da série, mas também na relação entre o espectador dela e suas personagens) se dá em cada uma das principais personagens femininas de Big Little Lies:


Madeline Martha Mackenzie (Reese Witherspoon)

O que aparenta ser: A caçadora de problemas.

O que ela realmente é: Madeline acaba sendo a figura central da “tese” que a série traça. Como mãe, a personagem acaba querendo interferir demais na vida das filhas não apenas por querer centralizar a gestão da educação delas, mas por receio de que no futuro elas passem pela mesma crise de identidade que ela vem passando em função de nunca ter tido uma carreira e ter se dedicado exclusivamente às garotas, percebendo que um dia não será mais “necessária” já que filhos crescem. Na relação com as demais mulheres, Madeline é contraditória. Ao mesmo tempo em que demonstra ser uma amiga leal e ter profunda empatia pelo que Celeste e Jane viveram, mostra-se implacável com quem não é tão íntima assim, como Renata Klein, Mary Louise e Bonnie, simplificando sua percepção sobre elas a partir do perfil que as pessoas de Monterey traçam de maneira preconceituosa para essas personagens.


Celeste Wright (Nicole Kidman)

O que aparenta ser: O modelo de mulher perfeita.

O que ela realmente é: Em um episódio da primeira temporada da série, Madeline se surpreende quando Celeste lhe desabafa acidentalmente por telefone que está passando por problemas no seu casamento com Perry. Na segunda temporada, Mary Louise, a sogra da personagem, a descreve como um enigma. Por vergonha e introspecção, Celeste tem dificuldade para compartilhar seus problemas mais graves até mesmo com amigos como Madeline. Todos só souberam do relacionamento abusivo que ela vivia com Perry quando a situação chegou no limite do tolerável. Em Monterey, a personagem é colocada num pedestal e a imagem pública do seu casamento oscilava entre o modelo de comercial de margarina da “família feliz” e um tórrido romance à la Danielle Steel. A própria Celeste sempre surge alheia aos demais personagens em cena, como se nenhum daqueles problemas mundanos de Monterey pertencessem a sua realidade, quando na verdade ela está lidando com sérios problemas como estresse pós-traumático e depressão. Celeste ama seu agressor, cuja lembrança dentro da sua própria casa é mantida no invólucro ilusório do “marido e pai perfeito” pelos filhos e por sua sogra. Viver com sentimentos tão intensos e incompreendidos por terceiros pela complexidade e contradição lega à personagem algumas sequelas psicológicas bem complicadas.


Jane Chapman (Shailene Woodley)

O que aparenta ser: A irresponsável mãe solteira.

O que ela realmente é: Assim que seu filho Ziggy foi apontado como o culpado pelos episódios de agressão a Amabella, a filha de Renata Klein, Jane imediatamente foi apontada como a principal responsável pelo suposto comportamento do menino. Na cabeça de muitos, o fato de Ziggy crescer num lar sem pai e não saber a identidade do mesmo era uma espécie de consequência lógica para a formação de um adulto problemático. A própria Jane em dado momento passa a questionar se o fato do filho ser fruto de um estupro e carregar o DNA de um homem agressor não transformaria o garoto num adulto violento. Com o tempo, a gente vai percebendo que a criação simples de Ziggy, bem distante da vida de luxo que percebemos na realidade das demais personagens, lhe proporciona um lar cheio de amor. Sozinha e com o fantasma do estupro, Jane conseguiu criar um menino carinhoso, sensível, inteligente e emocionalmente maduro, se distanciando por completo de realidades aparentemente perfeitas como a de Celeste e Perry Wright, por exemplo, que legaram aos gêmeos Josh e Max uma referência masculina bastante problemática, e de Renata Klein, que com todo o conforto que dá a Amabella não consegue dar segurança física e emocional à filha.


Renata Klein (Laura Dern)

O que aparenta ser: bitch do mundo corporativo.

O que ela realmente é: Desde a primeira temporada, Renata Klein luta contra o estigma da bitch workaholic que lhe seria natural em qualquer outro contexto e que inevitavelmente lhe é atribuído em Monterey. Com o mundo aos seus pés, não parece, mas Klein age como a garota desengonçada do colégio tentando a todo custo conquistar a atenção da menina mais popular e seu séquito, no caso, Madeline e sua melhor amiga Celeste Wright. A realidade paralela das mães de Monterey parece fazer Renata lidar com uma realidade de rejeição bem diferente daquela que ela vivencia na sua bem-sucedida carreira no mundo corporativo. Renata quer ostentar todo o luxo que conquistou com seu suor, mas também ser reconhecida publicamente como uma mãe-modelo. O problema é que a micro sociedade das mães de Monterey parece entender que uma função anula a outra.


Bonnie Carlson (Zöe Kravitz)

O que aparenta ser: A mulher sem tabus e equilibrada.

O que ela realmente é: Bonnie é capaz de impressionar Madeline pela capacidade com a qual administra seus problemas domésticos, lidando bem com a sua enteada e se mostrando um modelo de mãe com a “mente aberta”. A instrutora de yoga e adepta da meditação é tida como alguém desligada das picuinhas pequenas de Montereu. Por sua filosofia de vida, Bonnie também não tem muitos tabus pessoais. Na verdade, Bonnie é profundamente afetada pelos seus problemas – tanto que na segunda temporada percebemos os efeitos da morte de Perry em sua vida -, mas ela teve que aprender a utilizar recursos para sobreviver a uma realidade que gradualmente tem se revelado complicada pelo seu histórico familiar. A vida parece ter dado “boas porradas” em Bonnie e as cicatrizes a fizeram aprender a reconhecer os problemas quando eles de fato existem.


Mary Louise Wright (Meryl Streep)

O que aparenta ser: A sogra manipuladora.

O que ela realmente é: Mary Louise ocasionalmente coloca Celeste contra a parede pelo seu comportamento, criação dos filhos e relação que estabelecia com Perry. A dinâmica entre ela e a nora traz para a série a dificuldade que algumas mulheres têm de entender que em dado momento de suas trajetórias a vida dos seus filhos não está mais sob sua responsabilidade. Deve ser duro para Mary Louise aceitar que seu próprio filho seja capaz de agredir a companheira e estuprar uma jovem, equivaleria a assumir uma culpa que socialmente ela acabaria tendo que carregar (afinal, o problema sempre acaba caindo no colo das mães.  Ao mesmo tempo em que Mary Louise é uma “pedra no sapato” na vida da nora e é capaz de tecer considerações execráveis sobre o comportamento das mulheres da série, como Celeste e Jane, que na cabeça dela provocaram de alguma maneira Perry a reagir com agressividade, é uma mãe em estado de negação com a própria realidade. A série provoca o espectador a odiá-la e a própria Mary Louise parece fazer por onde, mas numa análise mais profunda percebemos que ela é fruto de questões culturais que moldam comportamentos que vão na contramão da sororidade.

Pin It on Pinterest