Crítica Wicked: Parte II

Crítica Wicked: Parte II
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Há em Wicked: Parte II tudo que mais assola de ruim no audiovisual da contemporaneidade. A primeira e a que mais incômoda é vontade exacerbada de criar momentos impactantes, mas sem que exista uma construção de narrativa ou de progressão para que tal efeito seja causado. Se um estúdio decide dividir um longa-metragem em dois, cada um deles será julgado separadamente e uma apoteose de 2h18 se torna exaustiva e vazia. Assim, o longa-metragem anterior não pode funcionar como uma alavanca para 138 minutos de uma continuação onde tudo parece ser um grande clímax.

Além disso, o protagonismo de uma mulher forte, corajosa, protagonista e heroína se esvai e toda a resolução fica, mais uma vez, para a fada loira branca e angelical – que aqui é a Glinda da Ariana Grande, mas que poderia ser qualquer loira branca e magra de Hollywood. Mas, caso o espectador acredite que todo esse incômodo com o escanteamento de Elphaba (Cynthia Erivo, fantástica, como sempre) é um papo muito “woke“, pode-se olhar para os elementos técnicos com frieza e ainda assim se sentir frustrado com o resultado da segunda parte de Wicked. O trabalho de decupagem de Jon M. Chu (Podres de ricos) e da montagem de Myron Kerstein (tick, tick…BOOM!) parecem perdidos.

É difícil de acompanhar as ações e fruí-las, com tantos rodopios com a câmera. A vontade de ser grandioso fez com que o trabalho de Chu ficasse confuso e sem personalidade. Um exemplo é a sequência do anúncio do casamento de Glinda e Fiyero (Jonathan Bailey). Com diversos shots ao redor do casal e da plateia, a emoção do momento se dilui, porque não há instante de intimidade criado, nem em relação à alegria de Glinda, nem sobre a insatisfação de Fiyero. O tom da cena é genérico e os quadros velozes, assim como todo resto. Sem nuance, nada se destaca e todo a projeção é um grande eco desesperado por atenção. Com uma única exceção: a canção Wicked for good, que dá nome ao título original.

Durante esta música, a produção faz sentido outra vez, como em sua primeira parte. A encenação cresce com os gestos e expressões faciais de Cynthia e Ariana. Os planos fazem sentido, porque estão à serviço da narrativa, incluindo o quadro geral dos dois lados de uma parede, que permite o público ver as reações e emoções das duas personagens. Outro ponto positivo é como Chu escolhe retratar a figura de Dorothy e todos os elementos de O Mágico de Oz. Com descrição, mas sem protagonismo, está tudo ali, porém pela perspectiva do mundo ficcional de Wicked, nisso a equipe foi fiel à sua própria história.

Mas, falando sobre protagonismo, quem realmente manda no destino da trama é Glinda. Quem vence a vilania de Madame Morrible (Michelle Yeoh) é ela, quem resolve um conflito que durou anos dentro do enredo, é ela, tudo passa por Glinda e Elphaba perde tempo de tela e de ação dentro do conflito. Durante a exibição, a questão racial não foge da mente, porque tudo que uma heroína talentosa, poderosa e forte procura fazer e ter é destruído e somente pode ser conquistado pela loira branca e magra. E é um problema aqui por Glinda não deveria centralizar a história e usurpar o protagonismo.

E ainda que muitos dos problemas sejam da dramaturgia original, a adaptação não honra a figura de Elphaba e, além de não melhorar as versões anteriores desta ficção, não honra o que já havia sido feito. Desta maneira, Elphaba passa a ser refém das atitudes de Glinda, mudando a sua posição actancial na história, modificando na base do enredo a sua função narrativa. Nesta perspectiva de personagem somente quem se mantém ocupando o mesmo lugar e, ao mesmo tempo, atua bem, é o Oz (Jeff Goldblum, brilhante). Michelle Yeoh entrou em uma espiral histriônica e se perdeu em seus gestos e sua voz. Cada expressão facial da atriz é uma tortura, porque é coberta de artificialidade.

Yeoh quer ser malvada e mostrar para a plateia isso. No entanto, no cinema é necessário compreender que o público está vendo a personagem. A fluidez e a organicidade são as melhores respostas para uma boa atuação. Dentro dessa lógica, Bailey quase chega lá, mas o ponto divergente é como Fiyero é escrito. Falta espaço no roteiro para que o ator consiga encontrar motivações para ficar com Glinda e, depois, preferir a Elphaba e estar disposto a morrer por ela. Todas as ações que o levam a passar pela transformação em espantalho parecem aleatórias e repentinas. Isto porque não houve construção dramatúrgica, com camadas, com progressão, com justificativas (mesmo que fossem internas, melhor ainda se fossem internas e sutis, inclusive).

Com esses elementos frágeis, Wicked: Parte II soa como uma vitrine para a construção de teasers impressionantes, que levarão as pessoas para o cinema. Não há, em seu texto ou imagens, espaço para respiros e, consequentemente, criação de ritmo. Tudo é fugaz nesta obra, é rodopiante e raso, e retira todas as camadas criadas em seu primeiro longa. Apesar de uma equipe que demonstra querer entregar um bom resultado e que são conectados para além do trabalho em si, talvez tenha faltado um distanciamento entre uma obra e outra, ao invés de gravarem tudo de uma vez só. Ainda assim, o carisma e a talentosa performance de Cynthia engrandecem a produção e diminuem um pouco do caos que o filme se tornou.

 

Direção: John M. Chu

Elenco: Cynthia Erivo, Ariana Grande, Michelle Yeoh

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