Springsteen: Salve-me do Desconhecido (2025)
Jeremy Allen White em cena de 'Springsteen: Salve-me do Desconhecido (2025)'

Crítica Springsteen – Salve-me do Desconhecido

Crítica Springsteen – Salve-me do Desconhecido
4.2

Indo na contramão de muitas cinebiografias recentes, Springsteen: Salve-me do Desconhecido é um recorte de um momento específico da vida do artista retratado em tela. A escolha do diretor e roteirista, Scott Cooper (O Pálido Olho Azul, de 2022), é seu maior acerto em todo o filme. Não que ele passe a colecionar deslizes daqui em diante, mas o longa-metragem funciona justamente por se permitir mergulhar num fragmento da vida do personagem-título, possibilitando um mergulho mais profundo nele e os dilemas vividos por ele na época.

Springsteen começa com o cantor (interpretado por Jeremy Allen White) finalizando sua turnê de sucesso do álbum ‘The River’ e se mudando para sua cidade natal, na esperança de descansar depois da intensa tour. Mergulhado em memórias duras de sua infância, Bruce compõe o álbum ‘Nebraska’, que muda o rumo de sua vida e carreira por escancarar para ele e para o mundo sua depressão.

A proposta de Cooper de fazer um filme que verdadeiramente se debruça na psiquê de seu personagem nesse momento tão delicado de sua vida é a força motriz de Springsteen: Salve-me do Desconhecido. O roteiro do cineasta leva o espectador a conhecer a fundo as dores do cantor em momentos de extrema inspiração e solidão. Esse dilema clássico dessas figuras criativas é a porta de entrada para a sensibilidade, o cuidado e o sucesso da interpretação de White (Garra de Ferro, de 2023).

Coincidentemente (ou nem tanto), é neste ponto que muitas cinebiografias falham. Muito se fala sobre os altos e baixos de renomados artistas, mas pouco se dá tempo de verdadeiramente ver isso expandindo até se tornar maior do que suas vidas. E é aqui que Scott Cooper faz Springsteen ser um primor. Ele dá tempo, tanto para sua narrativa quanto para sua direção, de criar os silêncios necessários para ensurdecer à todos. A produção de Nebraska foi o pedido de ajuda de Bruce, quando nem ele conseguia dimensionar o que tinha e o que precisava.

Springsteen: Salve-me do Desconhecido (2025)
Jeremy Allen White em cena de ‘Springsteen: Salve-me do Desconhecido (2025)’

A sensibilidade dessa escolha e da dilatação que ela exigia permitiu que Springsteen: Salve-me do Desconhecido tivesse algumas das atuações masculinas mais interessantes do ano, até então. A simplicidade em deixar White ou Jeremy Strong (O Aprendiz, de 2024) terem tempo de tela para se mostrarem expostos e frágeis é seu ponto forte. Ambos entregam performances impressionantes que não precisam de grandes explosões. O olhar, especialmente de White, diz tudo o que precisa ser compreendido.

Springsteen é um filme sobre contemplação. Contemplar o ritmo das canções, de sua feitura e da vida. É o tempo da batida de um coração sufocando em meio aos holofotes. É um respiro silencioso no meio de uma multidão. É um pedido de socorro, quando tudo parece estar indo bem. A forma como a depressão de Bruce é mostrada traz essas nuances e esse cuidado que é admirável.

Talvez Springsteen: Salve-me do Desconhecido seja uma das melhores cinebiografias dos últimos tempos justamente por saber escolher o que mostrar. A força do filme está em seu poder de decisão de delimitar um tempo que é um reflexo de um passado – onde essas cenas são milimetricamente calculadas para não dominarem o filme, mas entregarem o que precisam. Com um elenco que abraça a dor de sua história com cuidado e sensibilidade, este é um dos longas que merecem ser experienciados na telona.

 

Direção: Scott Cooper

Elenco: Jeremy Allen White, Matthew Anthony Pellicano, Jeremy Strong, Stephen Graham, Odessa Young, Gaby Hoffmann, Harrison Gilbertson, David Krumholtz e Paul Walter Hauser

Assista ao trailer!