Falar sobre as opressões e falsidades criadas pela vida virtual perpetuada pelas redes sociais é relevante para a sociedade contemporânea. Esse palco digital e mercantilizado, que é a internet, passa a impressão, diversas vezes, de realidade, para o público geral e é essa discussão central de #SalveRosa. Contudo, novo filme de Susanna Lira (Torre das Donzelas) tem uma execução que não é tão feliz quanto a premissa da obra.
O roteiro de Ângela Hirata Fabri (Um ano inesquecível: inverno) falha em organizar as gradações das personagens e progressões dramáticas. Os coadjuvantes não recebem camadas e suas trajetórias não são exploradas. Os vizinhos de Rosa (Klara Castanho), por exemplo, têm ações superficiais e previsíveis, como no caso da infidelidade de Beto (Ricardo Teodoro).
O mesmo pode ser dito da vilania da mãe de Rosa, Dora. Apesar do talento inegável de Karine Teles (Que horas ela volta?), a figura de Dora é pouco explorada pelo enredo. Ela tem esta conotação de mulher fútil, que não mede limites para se dar bem, algo bem vilã de novela das 9h. Mas, suas motivações profundas, suas emoções concretas e seu background não estão expostos na trama, nem direta e nem indiretamente.
Rosa sim possui um pouco mais de contorno. Por este motivo, a protagonista é a única que funciona naquele contexto como uma personagem crível e relacionável. Castanho entrega uma performance sólida, equilibrando o colorido do texto, imprimindo ingenuidade, alegria, medo e força no texto e em seu corpo, muitas vezes, até ao mesmo tempo.
No entanto, não é apenas de papel principal que se constroem boas histórias. O que está ao redor de Rosa é incômodo em termos de narrativa. Para além do roteiro, a direção também não impressiona e não aproveita os momentos que o roteiro traz. Há muita inventividade que poderia ser convocada neste ambiente de crítica à sociedade do espetáculo e das novas tecnologias.
Contudo, aqui se encontra uma decupagem bastante morna, com uma encenação que não valoriza as movimentações e as expressões faciais do elenco. O tom acaba por ficar artificial e o distanciamento da obra com o público cresce, à medida que a exibição avança. Esse afastamento se eleva ainda mais porque existem acontecimentos que soam como pistas falsas ou ações incompletas.
A forma como falam do pai de Rosa durante a sessão, o affair de Dora com Beto ou as próprias vivências delas em outras cidades e na vida nova do Rio de Janeiro são convocadas sem costura e sem ser explorados totalmente. Esta sensação de vazio fica na plateia justamente porque não existe um ponto de força no longa-metragem.
Ainda que existissem fragilidades em #SalveRosa, momentos de intensidade e crescente poderiam suavizar a fraqueza de um ou mais aspectos da produção. Todavia, o filme não alcança um bom resultado, pois não constrói uma atmosfera de suspensão, tampouco elabora a jornada de mãe filha entre Rosa e Dora e as experiência da menina dentro da internet. Todos os temas são lançados sem um maior cuidado. É por esta razão que a sessão é cansativa e fica cada vez mais desinteressante, a cada minuto de projeção.
Direção: Susanna Lira
Elenco: Klara Castanho, Karine Teles. Ricardo Teodoro
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