História de um Casamento (Marriage Story) é um grande banho de água fria para os românticos e dramáticos. O novo filme de Noah Baumbach — o sucessor espiritual de Woody Allen e autor da obra prima Frances Ha — enxerga as relações amorosas como esse grande palco para encenações e o exagero. Enquanto isso, a realidade é bem mais simples do que parece, crua, não é enfeitada.

Charlie (Adam Driver, Infiltrado na Klan) e Nicole (Scarlett Johansson, Vingadores – Ultimato) eram casados e viviam em Nova York com um filho. Ele é o diretor de uma companhia teatral e ela é sua atriz principal. No entanto, quando Nicole decide pedir divórcio e se muda para Los Angeles com o garoto, os dois acionam seus advogados para resolverem os trâmites burocráticos. Conforme a disputa pela guarda vai ficando intensa, eles tentam manter uma relação amigável, na tentativa de não traumatizar a criança.

Como o próprio processo de divórcio é desconfortável por si só, é curioso ver como seus protagonistas tentam agir com uma certa naturalidade diante de toda essa situação incômoda. Eles são essas pessoas que ainda sentem um carinho mútuo, mas fingem serem mais duros do que realmente são. A própria entrega da papelada do divórcio pela irmã de Nicole exige uma encenação por parte dela e sua irmã. Em contraponto existe toda uma encenação dos advogados durante o processo. A advogada interpretada por Laura Dern, por exemplo, é extremamente incisiva durante as audiências, mas troca papo furado com o outro advogado durante uma pausa.

A encenação está presente por toda a parte. É algo que está presente na natureza de ambos, por conta de suas profissões, mas que afeta o próprio modo como eles agem diante do outro quando precisam se encontrar. Existe essa tentativa de uma falsa cordialidade, que, gradualmente, vai chegando a um nível onde não é mais possível fingir. E é aí que a relação se inverte completamente. A briga deixa de ser uma encenação e vira o único momento que eles estão sendo verdadeiros.

De mesmo modo, História de um Casamento começa com uma grande encenação. Somos apresentados a cada cada membro do casal separadamente, enquanto uma narração em off do outro lê suas principais qualidades. Parece que estamos diante de um casamento perfeito. Momentos depois, descobrimos que aquilo era uma carta que o conciliador do divórcio havia pedido que escrevessem. É interessante como o filme cria esse pequena reviravolta já logo em seu início, sendo um prenúncio de tudo que está por vir. Mais do que uma memória, aquilo é como uma grande mentira que eles tentassem manter viva um do outro, quando a realidade já está bem distante de tal romantismo nostálgico. Eles encenam o passado em suas cabeças.

A maneira como Noah Baumbach escolhe filmar essa ruptura do casal até chega abusar um pouco dos simbolismos nos enquadramentos meticulosos em suas cenas. O filho sendo puxado pelo casal, o modo como cada um ocupa um polo distante de um enquadramento, o portão que se fecha entre os dois. Acaba que isso tudo está em prol dessa grande encenação da própria separação. Não só isso, como há em Marriage Story um grande palco para seus atores. Se o monólogo de Johansson e o desabafo musical de Driver emocionam, é porque isso tudo faz parte de um jogo maior em prol dessa teatralidade, além do grande talento dos dois.

Conforme vai chegando ao fim, aqueles personagens (e atores), não aguentam mais todo esse jogo de interpretação. Não deixa de ser engraçado que o personagem de Driver, no único momento que deveria encenar — quando está diante da profissional que irá avaliar seu trabalho como pai — acaba agindo da maneira mais genuína possível. Similarmente, na fatídica cena em que os protagonistas explodem, não há como não notar que a briga acontece enquanto Adam tenta fugir da daquela realidade dura. Ao mesmo tempo que briga, ele está lavando um prato de louça. Existe um pouco essa noção do homem médio que se acha inocente e vitimizado, mas que no fundo é extremamente falho e humano. Adam Driver consegue fugir bem desse maniqueísmo.

História de um Casamento é essa grande encenação. Seus personagens, artistas, são assim por natureza. O filme vai mostrando aos poucos como o divórcio não é aquele fim do mundo que o personagem de Driver acredita. Mas no fim, o tempo cura tudo. A vida segue, mas será sempre possível voltar ao passado através de uma encenação mental enquanto se lê uma carta.

Direção: Noah Baumbach

Elenco: Adam Driver, Scarlett Johansson, Laura Dern, Ray Liotta, Alan Alda

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