Dezessete

Crítica: Dezessete

Rotular pessoas como boas ou ruins é um tanto quanto simplificador e maniqueísta. O mesmo se aplica para suas ações, que não devem ser analisadas objetivamente, mas sim dentro do contexto de cada situação. Por exemplo, o que dizer de um jovem que entra numa loja de departamentos, se esconde dentro de um barraca até a hora dela fechar e rouba um purificador de ar? À primeira vista, apenas um ladrão, certo? E se ele fez isso para levar até sua vó à beira da morte, que não recebe subsídios do Estado? Este é Héctor (Biel Montoro), protagonista de Dezessete.

Ainda que esse julgamento moral interesse ao público, o governo espanhol não parece preocupado com as motivações de Héctor. Por isso, o jovem é levado para um centro de menores infratores e, isolado de todos, acha seu porto-seguro em duas coisas: um Código Penal e no cachorro Carneiro. Todavia, após um certo tempo, o animal (que ficava apenas temporariamente no centro) foi adotado por uma família. Assim, desolado e em fúria, o rapaz foge e encontra seu irmão mais velho, Ismael (Nacho Sánchez). A partir daí, os irmãos partem em uma viagem de trailer, juntamente com a avó, até os possíveis endereços de Carneiro.

Dirigido por Daniel Sánchez Arévalo (Azul Escuro Quase Preto), Dezessete acaba sendo um misto de diversos subgêneros. Primeiramente, há um caráter de road movie (aventura na estrada) que lembra obras como Pequena Miss Sunshine e Na Natureza Selvagem. Segundo, há toda uma emocionante relação de afeto entre o protagonista e o cão. E por fim, há drama sobre um jovem que, apesar de sua inteligência, não consegue se encaixar na sociedade e, por isso, é negligenciado e encarcerado.

Se o motor que movimenta a narrativa é a busca por Carneiro, o roteiro (coescrito por Sánchez) apenas usa esta motivação como pano de fundo. No fim, o que verdadeiramente importa é a viagem de seus personagens, sendo uma jornada metafórica de autodescoberta, tanto para Héctor quanto para Ismael. Ambos fogem das consequências e responsabilidades de seus próprios atos.

Dezessete

Entretanto, o destaque inicial dado para a relação com o animal — realçado por uma dinâmica montagem e uma enorme sensibilidade de Montoro — acaba criando uma expectativa que a trama nunca entrega. Por outro lado, o cachorro pode apenas ser visto como um grande metáfora para a juventude perdida de Héctor. Privado desta desde cedo, o jovem encontra a pureza que nunca teve na figura de Carneiro, apenas para ser retirado deste momento escapista novamente pelo Estado. Portanto, é uma busca também por aquilo que ele nunca teve.

Certamente, uma das coisas mais bem trabalhadas de Dezessete acaba sendo a complexa relação dos irmãos. Um dos motivos para isso é como Héctor, mesmo sendo mais novo, acaba por mostrar uma maturidade muito maior que Ismael e dá várias lições para ele. Como o próprio roteiro explica — sem soar expositivo, em uma inteligente cena — o mais velho sempre tentou ser o pai que o outro nunca teve. Além disso, outra coisa que une essa relação é a figura quase espiritual da avó, gerando uma curiosa e interessante subtrama na qual eles buscam um caixão para a idosa que ainda nem morreu.

Quando o novo longa espanhol da Netflix chega ao fim, fica claro que o destino final nunca importou. Vivido pelo ótimo e conflitante Biel Montoro, Héctor precisava de uma aventura para encontrar sentido na vida. Ao fim, todos os acontecimentos serviram para o garoto evoluir, em uma clássica história de coming-of-age. No fundo, tudo que ele sempre quis era se sentir abraçado e cuidado por alguém, impedindo que ele tomasse decisões equivocadas. Afinal, quem nunca errou aos Dezessete?

Direção: Daniel Sánchez Arévalo

Elenco: Biel Montoro, Nacho Sánchez

Assista ao trailer!

Confira o longa Dezessete diretamente na Netlix!