40º Festival Internacional de Cinema de Mar del Plata: Cordillera de fuego

40º Festival Internacional de Cinema de Mar del Plata: Cordillera de fuego
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Um assunto constante nas críticas desta que vos escreve é a boa vontade. Quando se assiste a um filme é possível perceber quando uma equipe quer contar uma história da melhor maneira possível, ainda que não consiga fazer. Esse é, infelizmente, o caso de Cordilheira de fogo, novo longa-metragem do diretor guatemalo Jayro Bustamante (Tremores). Com uma mensagem potente sobre genocídio indígena, questões ambientais e roubo de terras feitas por brancos, o que falta aqui é qualidade técnica para passar todo esse discurso urgente.

Com reiterações de discurso e imagens, a obra conta inúmeras sequências que são quase iguais em movimentação e diálogo, roteiro e direção. Ainda assim, com todas as repetições, o roteiro falha em aprofundar as emoções das personagens. Assim, as constantes explicações sobre o perigo do vulcão tiram o espaço para a exploração maior dos diálogos e das relações das figuras dramáticas. Isso se dá principalmente com a figura central, Paula (María Mercedes Coroy).

Apesar de Coroy ter trabalhado tantos anos com Bustamante há anos e em diversos projetos distintos, ela não parece confortável em cena, tornando-se limitada. Tanto em termos de expressão facial, quanto de tonalidade vocal, a intérprete é monocórdica e as intenções do texto parecem sem consciência de intenção da personagem. Os seus desejos outros e suas gradações de humor não são impressas na tela. Ao seu redor, todos parecem planificados também – com exceção da figura do pastor, que é a única um pouco mais complexas.

Neste sentido, fica ainda mais desafiador acompanhar a sessão porque os coadjuvantes também não entregam boas performances, tampouco são escritos com camadas. Um exemplo são os diálogos que poderiam estar na boca de qualquer papel. Falta nuances, background e profundidade. Algo que poderia ajudar é elevar momentos de troca sobre o passado, como acontece em uma cena do filme. Esses instantes poderiam estar mais presentes. Ainda assim, pequenas falas e gestos também dizem muito e deveria aparecer durante a projeção.

É por esta razão que fica uma sensação de vazio com o longa. Além disso, a montagem não ajuda a amenizar essa frouxidão da obra. Os cortes intensificam a desconexão do espectador com a produção, por deixar um quadro mais ou menos tempo ou, simplesmente, por não selecionar um bom ponto de corte. O maior exemplo dessa questão está em toda a sequência da primeira fuga do vulcão.

A ausência de liga da edição reduz a tensão, porque o público não consegue ver com nitidez o que ocorre com as personagens e os saltos temporais entre um momento e outro pioram essa impressão. É como se “do nada” as situações mudassem. Desta maneira, Bustamante entrega um longa-metragem de denúncia e reflexão. Isso está lá, estampado na tela. No entanto, a falta de qualidade técnica impede que o filme circule mais e ganhe atenção da indústria e da plateia.

Cinema também é linguagem e o público necessita estar conectado com a história durante a sessão. Com tudo que é dito durante a projeção, a vontade de gostar da obra é imensa, mas o como ela é feita se torna um grande muro para uma fruição prazerosa.

Direção: Jayro Bustamante

Elenco: María Mercedes Coroy; Tatiana Palomo; María Telón

 

Assista ao trailer!