14º Olhar de Cinema: Uma canta, a outra não

14º Olhar de Cinema: Uma canta, a outra não
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Eu desafio qualquer mulher progressista a sair da exibição de Uma canta, a outra não sem sentir preenchida de um fomento de sentimento revolucionário.

Agnès Varda (Clèo das 5 às 7) brilha no roteiro e na direção deste longa-metragem, que mescla assuntos profundos e relevantes, com a sensibilidade de saber explorar as relações.

Tem uma mistura aqui, entre o visual e o discursivo, que embala o público durante a sessão. De um lado, existe uma exploração das perspectivas de feminilidade, do que se espera das mulheres e do que elas desejam para o futuro.

Do outro, tem o tom disruptivo, no qual é impossível aceitar o poder do Estado para com os corpos da mulheres, principalmente, quando a questão é controle de natalidade e aborto.

As temperaturas suaves da luz e dos objetos de cena, constrastam com as vestimentas das personagens principais: Pomme (Valérie Mairesse)  e Suzanne (Thérèse Liotard). O mundo que elas habitam, que pedem que elas sejam suaves ou cinzas, mas esse fator imprime uma melancolia ou desconforto, incialmente.

Esses elementos vão se transformando. O ambiente se torna cada vez mais solar, os tecidos que elas vestem mais leves e a vida da dupla cada dia mais consciente. Nada é perfeito ou sem luta, tampouco elas deixam de seguir alguns ritos ditos “femininos”.

No entanto, à medida que a projeção avança, a compreensão de Pomme e Suzanne sobre o mundo, sobre suas emoções, deveres, direitos e a própria amizade dela vai fomentando o argumento do longa.

A decupagem de Varda também funciona nessa construção. A escolha precisa da duração dos planos e da distância dos quadros, deixam nítido o que a cineasta quer que a espectadora se demore.

Essa é uma obra sobre mulheres, sobre feminismo, sobre lutas e parcerias de artistas, sobre a necessidade de profissionais da saúde em auxiliar mulheres em estado de vulnerabilidade e sobre os limites dos homens em não assumir papéis do patriarcado brancos cisgênero.

A produção, de 1977, é tão atual que deixa um engasgo. Mas, também é um despertar ou um lembrete de que a luta não acabou e nem vai acabar tão cedo. Este é um título um tanto panfletário, mas bem cuidado esteticamente.

Talvez, a ingenuidade de Pomme canse um pouco em alguns momentos, mas a noção de complexidade de personagem que Varda tem aparece, principalmente, aí. Pomme tem suas fragilidades, porém ela nunca para de lutar.

O cinza do aprisionamento deste sistema patriarcal é destruído, pouco a pouco, pelas músicas de Pomme, pela maneira que Suzanne cria a sua filha, pela amizade de décadas entre duas mulheres, pela luta diária que é ser mulher, neste mundo opressões masculinas de brancos.

Uma canta, a outra não é coeso e mostra a trajetória de duas mulheres muito diferentes. Ainda que seja cantora e a outra não, há arte correndo entre elas, a arte de se manterem vivas, produtivas, fortes e conectadas.

Direção: Agnès Varda

Elenco: Thérèse Liotard, Valérie Mairesse, Robert Dadiès