Crítica: Mãe!

Darren Aronofsky é um cineasta de extremos. As tramas, personagens e universos de seus filmes quase sempre representam muito mais do que aquilo que as imagens denunciam, ele é um cineasta eminentemente metafórico e possivelmente Mãe! é o seu trabalho mais radical nesse sentido. O diretor e roteirista não está interessado numa narrativa linear e que se contenta com a sucessão de eventos e personagens realistas oferecidos ao espectador. Aronofsky quer usar seu filme e suas tramas para discutir temas variados, todos eles vinculados à natureza humana e seus conflitos psicológicos, representando no mundo externo  àquilo que seus personagens vivenciam internamente, como ocorreu em Réquiem para um Sonho Cisne Negro. Em Mãe! isso é convertido em divagações pessoais sobre a muitas vezes impiedosa experiência de estar vivo. Aronofsky aparenta querer conversar conosco por meio de alegorias em seu cinema sempre metafórico.

Ao mesmo tempo, Darren também é um diretor que costuma burlar alguns manuais do cinema, indo na contramão de convenções técnicas e estéticas no que diz respeito aos seus roteiros, composições de planos etc. Assim, não surpreende que Mãe! seja um filme divisivo como tantos outros de sua carreira. Aronofsky segue abusando da rebeldia, questionando dogmas cinéfilos e traçando o seu próprio manual de linguagem cinematográfica com uma assinatura narrativa e estética que lhe é peculiar. Contudo, pouco do que já foi vivenciado até aqui na carreira do diretor pode preparar o espectador para o que será visto nesse longa protagonizado pela atriz Jennifer Lawrence – e olha que estamos falando de títulos controversos como Réquiem para um SonhoCisne Negro, Fonte da Vida e até Noé. Por ser alegórico ao extremo, não espere de Mãe! um suspense ou horror ambientado numa casa mal assombrada como denunciam os trailers, o filme não é nada disso, mas também não vá ao cinema esperando algo similar aos exemplares da carreira do diretor, as marcas do seu cinema são preservadas nesse longa, mas ele surge aqui muito mais “fora da casinha” que o habitual.

No filme, Lawrence e Javier Bardem interpretam um casal que começa a receber estranhas visitas na casa que reformaram. Os primeiros hóspedes são um médico e sua esposa, vividos por Ed Harris e Michelle Pfeiffer, respectivamente, ambos bastante esquisitos, por sinal. Conforme a trama do longa avança, novos personagens surgem e a jovem interpretada por Lawrence passa a ficar às voltas com a maternidade, mas também extremamente incomodada com a exagerada hospitalidade do esposo no tratamento dos intrusos. Adiantar mais do que isso seria estragar a experiência do leitor com o filme, então, por precaução, acredito ser recomendável parar qualquer descrição por aqui. A partir das próximas linhas trarei detalhes do longa e possíveis SPOILERS que podem evitar, caso queiram uma experiência com o longa mais “crua”.

Como Cisne Negro Requiém para um SonhoMãe! tem alguns dos méritos da direção e do roteiro de Aronosfky, o principal deles é o manejo que o cineasta tem na construção do estado inebriante e delirante de tensão em espiral que seus protagonistas experimentam. Assim como a bailarina Nina de Natalie Portman em Cisne Negro entrava em colapso com toda sorte de fatores que interferiam no seu processo de afirmação profissional e os  junkies de Réquiem para um Sonho eram corroídos pelos efeitos alucinógenos das drogas que consumiam, a personagem de Jennifer Lawrence experimenta uma tensão crescente e insuportável na medida em que aquilo que ocorre na sua casa lhe foge do controle. Isso traz para o filme um desempenho muito intenso da atriz, talvez um dos mais fortes da sua carreira junto com Inverno da Alma. O espectador presenciará na tela uma exaustiva e complicada jornada psicológica, mas também física, desenvolvida com muito cuidado por um desempenho inspirado da precoce vencedora do Oscar.

Aronofsky explora também a fisicalidade da casa, um organismo vivo em ebulição, como estímulo para a interpretação de Lawrence. Além disso, a dinâmica da personagem da atriz com os demais personagens que surgem em cena são importantes para o crescente e inquietante estado de tensão do longa. Os principais deles são aqueles vividos por Javier Bardem e a esposa do médico interpretada por Michelle Pfeiffer. Enquanto Bardem interpreta uma figura aparentemente dócil e amorosa, se revelando posteriormente um ególatra perigoso, Pfeiffer vive um momento inspirado na sua carreira dando vida a uma provocadora intrusa que desestabiliza as convicções da protagonista.

O estado febril da personagem de Lawrence toma conta da própria história na medida em que Aronofsky transforma a estrutura de Mãe! em algo que possui estreita vinculação com a Bíblia aliado a reflexões sobre o próprio percurso da humanidade na Terra. Há passagens no filme que tornam claras estas vinculações como a vivência de Adão e Eva no Paraíso, a vinda do Messias, o fanatismo religioso a partir da idolatria a uma figura e a barbárie humana. Fazendo as vezes de mãe natureza, Lawrence vive um símbolo da esperança de um novo ciclo na Terra, completamente destroçada pela gradual corrupção, inveja e violência que arruina por completo o mundo que concebera com a melhor das intenções, ou seja, a casa sempre referenciada na obra. Assim, Aronofsky nos põe em contato com um processo, que, pelo caminhar do seu desfecho, é cíclico, mas também não significa que se repetirá, apesar de dar a entender que tudo aquilo que vivenciamos foi mais uma tentativa frustrada de fazer o mundo dar certo. Quem sabe na próxima?


Além da corrupção do homem e seu dom de destruir qualquer fagulha de esperança que sua vista alcance, Mãe! também pode ser interpretado como um filme que quer abordar a maternidade ou o casamento e como, na sociedade em que vivemos, muitas vezes, essa jornada é marcada por perdas violentas para a mulher (sua juventude, inocência, vivacidade), enquanto que ao homem é reservada a possibilidade de recomeçar. Uma interpretação que, por sinal, não deixa de dialogar com aquela que anteriormente traçamos. Fica claro, portanto, que qualquer interpretação de Mãe! não pode ser encarada como uma leitura cerrada do filme, afinal, como já expus, é uma obra que demanda revisões constantes e um tempo maior de maturação da sua experiência espectatorial. Assim, cada espectador terá a sua leitura, que, por sua vez, pode mudar perfeitamente numa segunda visita ao filme e aí está a riqueza desse novo trabalho de Darren Aronofsky.

Ao nos depararmos com um filme como Mãe!, a certeza que temos diante de tantas interrogações em forma de exclamações visuais e inquietações deixadas pela obra é que quando o assunto é o cinema de Darren Aronofsky estaremos sempre em contato com os traços da arte de um enfant terrible. Autoral em cada fibra dos seus filmes, goste deles ou não, Aronofsky é um artista genuíno numa cinematografia cada vez menos afeita a causar o tipo de comoção que sua obra gera. O cinema do diretor é antes de mais nada provocador. Como traço do caráter da filmografia do realizador até então, Mãe! é um filme que tende a ter uma passagem complicada pelos cinemas, indignando espectadores que talvez sintam uma certa dificuldade no enfrentamento de uma obra tão alegórica. O que posso garantir é que se o leitor der um pouquinho de abertura ao teor de abstração da história de Mãe! se deparará com o tipo de longa que grudará na cabeça por muito tempo, já que é extremamente tentador retornar a ele e pensar um pouco mais sobre suas pistas.

Assista ao trailer:

 

Wanderley Teixeira418 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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