Letícia Monte Bonito, 04

Mostra de Tiradentes: Letícia Monte Bonito, 04

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Tonalidades claras, clima nostálgico e iluminação forte, quase estouradas, são as primeiras coisas que se notam nos primeiros minutos deste curta-metragem, Letícia Monte Bonito, 04. Narrando o encontro de duas jovens que estabelecem uma relação de paquera e afeto, o filme procura instaurar uma ambientação leve e despretensiosa. Letícia (Maria Galant) e Laís (Eduarda Bento) possuem gostos em comum e dividem uma tarde prazerosa, com música, lanches, jogos e séries.

Há toda uma construção de atmosfera de jovialidade impressa na tela. Através de detalhes, como a cor rosa presente de forma intensa ou quando colam a tatuagem que vem no chiclete, existe um ar de inocência criado pela equipe da obra, deixando imprenso e demarcado o tema do amor juvenil. Enquanto estes elementos saltam aos olhos, a conexão da dupla não se perde. Há uma química entre Laís e Letícia. Os olhares das duas conversam e dialogam com sentimentos que se fazem palpáveis. São sensações serenas, porém que também conseguem denotar certa paixão e a atração física entre elas.

Um elemento importante de se destacar é a escolha por um enredo leve para se tratar de duas mulheres se envolvendo romanticamente. Falta na arte como um todo um espaço para tramas felizes, sem finais trágicos, mortes e sofrimentos, quando se fala em casais queer femininos. Pesquisadores da área de comunicação, que estudam o audiovisual e o público LGBTQI+, vêm investigando e mostrando a quantidade de temas e situações negativas em obras que envolvem esta parcela da sociedade. Desta maneira, Letícia Monte Bonito, 04 é um bálsamo dentro de um cenário difícil, com pouca visibilidade e representações ineficazes ou dolorosas.

Letícia Monte Bonito, 04

No entanto, apesar de seus ganhos, o curta peca em alguns sentidos. A começar por uma espécie de confusão temporal. Não dá ao certo para saber se existiu um equívoco na pesquisa para a construção da produção ou se a mistura de épocas é proposital. Contudo, fica uma impressão de lacunas sobre a estética apropriada para cada década. Assim, enquanto a indumentária e cabelo de uma parece do final dos anos 1980 e da outra início dos anos 2000. Enquanto isso, em uma televisão, o seriado Xena: a princesa guerreira está passando, o que pode remeter aos anos 1990. Mas, na parede há um pôster da cantora Avril Lavigne, o que devolve a ideia de que a história de passa entre 2001 a 2003.

Não há como saber, porém estes elementos incertos retiram um pouco da atenção do espectador para com o que está sendo contado. Além disso, a relação entre o casal parece ganhar uns saltos de aproximação, quebrando qualquer tipo de progressão. As dinâmicas mudam em estalos repentinos. Um exemplo é o confronto do início, quando Laís entra na casa de Letícia e começa a mexer nas coisas dela. Há um susto inicial, porém, em poucos segundos o tom é outro, é mais amigável. A ligação entre a dupla não tem tempo de ser desenvolvida e a vontade de querer mostrar o crescimento da interação delas é válida, mas mal explorada em Letícia Monte Bonito, 04.

Direção: Julia Regis

Elenco: Maria Galant, Eduarda Bento.

Assista ao trailer!

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