Em 2026, três filmes cujo foco temático é a Palestina entraram na shortlist do Oscar. A Voz de Hind Rajab, da tunisiana Kaouther Ben Hania, representa a Tunísia. Tudo o que resta de você, da estadunidense Cherien Dabis, vem em nome da Jordânia. Por fim, Palestina 36, da palestina Annemarie Jacir, é o título vindo da Palestina.
Além deste feito, os longas-metragens, dirigidos por cieneastas mulheres, marcaram presença em festivais do mundo inteiro, como apontam as páginas do Instituto Palestino de Cinema (IPC) e da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal). No filme da Kaouther, conta-se a história da criancinha palestina, de seis anos, assassinada com 355 tiros por israelenses. A Voz de Hind Rajab foi indicado ao Globo de Ouro de melhor filme em língua não inglesa, deste ano.
A obra também esteve presente em festivais como o de Mar del Plata e Veneza. A diretora Kaouther Ben Hania explica que sentia a necessidade de honrar a memória de Hind. O desejo da cineasta era o que a impulsionava e a toda sua equipe também. “Os atores estavam no momento, não estavam atuando, estavam realmente devastados, como vocês veem na câmera”, revela Kaouther.
A artista explica que as gravações foram completamente diferentes do que ela geralmente experiencia dentro do set, justamente por conta do grau trágico e da gravidade do que aconteceu com Hind. Por esta razão, ao lado do diretor de fotografia do longa, Juan Sarmiento, a decupagem foi bastante analisada antes de rodarem, para que fossem feitas poucas interrupções durante as filmagens.

Imagem de divulgação de A Voz de Hind Rajab
A doutora em Comunicação pela UFPE, professora e curadora Carol Almeida questiona os espaços dados pelas instâncias de poder aos filmes e realizadores palestinos. Para a pesquisadora, falta coragem ao cinema, que institucionaliza e comercializa a dor, mais do que a denuncia. Carol detalha que nos anos 1970 existia uma maior movimentação de realizadores e instituições estrangeiros em relação à luta contra o extermínio dentro da região.
Almeida também elucida que a presença feminina na direção audiovisual da Palestina não é uma novidade, mas que dos três nomes que aparecem na shortlist da Academia, somente Annemarie Jacir é nascida na região. De acordo com a estudiosa, ter uma outra cidadania pode ser um fator facilitador para a seleção de uma obra que trate sobre o país e o genocídio que o mesmo vive. No entanto, ela ressalta que essas obras feitas por não palestinas também são importantes porque conseguem alcançar espaços mais desafiadores para a causa.
De acordo com o Instituto da Cultura Árabe, em 2025, O IPC procurou fomentar as possibilidades de quem realmente é palestino continue contando suas histórias. Através do lançamento de um fundo cultural, o ICA destaca que esse olhar local tem a chance de ser ampliado. Neste sentido, o apoio financeiro é voltado para todos os palestinos do mundo. O objetivo do intento é apoiar o audiovisual da Palestina. Dentro desta lógica, o Instituto promove chamadas duas vezes ao ano. Para maiores informações sobre a ação, acesse: https://www.palestinefilminstitute.org/
Leia as entrevistas completas com Kaouther Ben Hania e Carol Almeida, a seguir!!!
Entrevista completa com Kaouther Ben Hania
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Kaouther Ben Hania, em 2025, no Festival de Veneza / Foto: Tiziana Fabi/AFP
Enoe Lopes Pontes – Assim como muitas pessoas, eu também assisti ao filme em um festival. Eu vi ele em Mar del Plata. Foi uma sessão muito intensa, todos choraram. E eu só quero dizer que nunca mais serei a mesma pessoa. E acho que esse é o ponto forte do filme. Não podemos viver normalmente com o que está acontecendo em Gaza.
Kaouther Ben Hania – Sim.
ELP – Mas o que eu gostaria de perguntar é sobre os aspectos formais. Não temos muitos cenários, mas temos muitos ângulos diferentes, com iluminações e movimentos de câmera na mise-en-scène, que modificam a perspectiva sobre a narrativa em cada sequência. Então, eu gostaria de saber como foi esse processo criativo.
Kaouther Ben Hania – Este filme contou com um longo processo. Na verdade, eu sou um pouco controladora, como todo cineasta no mundo. E sou muito exigente com o cronograma, com a atuação dos intérpretes. Eu exijo muito deles. E com este longa, eu sabia desde o início que não poderia trabalhar assim. Não é um filme e não é uma filmagem normal. Então, o que fizemos com meu diretor de fotografia, Juan Sarmiento, que é um ótimo diretor de fotografia e também cuidou de toda a câmera, foi pré-iluminar cada cena. Não estávamos com vontade de iluminar cada imagem. E, na verdade, filmamos como um documentário. Os atores estavam vivenciando cada momento, não estavam atuando, estavam realmente devastados, como vocês veem na câmera. Então, às vezes, filmávamos tomadas longas e, às vezes, tínhamos algum problema técnico, como o microfone boom no enquadramento. Em uma filmagem normal, eu cortaria e diria: “vamos começar de novo, do começo”. No entanto, eu conseguia ver que os atores estavam realmente com as emoções cruas e reais.
ELP – Entendi.
KBH – E não só eles, toda a equipe, porque todos nós estávamos ouvindo aquela voz. Então, filmamos, principalmente, tomadas longas. E na edição, tentei limpar um pouco, porque às vezes não estava tão preciso. E também acho que esta foi a filmagem em que fiz a pausa mais longa, porque a emoção era muito forte. Então, podíamos nos abraçar e conversar. E também pensávamos, quando ficávamos emocionados, que não se tratava apenas de nós tentarmos juntos pensar naquela garotinha, no que ela viu em suas últimas horas. Então, nossa emoção era como a emoção de pessoas privilegiadas. Sabe, precisávamos honrar a voz dela. Então, isso também foi algo muito forte que nos impulsionou a continuar e a honrar a voz dela.
Entrevista completa com a pesquisadora Carol Almeida

Professora Carol Almeida / Foto: MCS/MZ
Enoe Lopes Pontes – Como você enxerga a visibilidade que é dada ao cinema palestino em festivais e premiações?
Carol Almeida – Primeiro, a visibilidade que é dada ao cinema palestino em festivais e premiações existe, de uma maneira geral, muito antes de outubro de 2023. O cinema palestino chega às pessoas, geralmente, a partir de festivais que tem um recorte específico. Eles estão um pouco mais atentos aos cinemas que às vezes não são tão narrativos, a cinemas mais experimentais ou cinema documentais. Mas, quando a gente fala, por exemplo, de cinema narrativo palestino, a gente geralmente vê esses filmes circulando em alguns festivais mais independentes.
ELP – Entendi.
CA – Acho que é preciso salientar que, depois de outubro de 2023, como o peso do que vive o povo palestino ao longo de mais de 80 anos, se a gente for pensar que muito antes da Nakba essas pessoas já estavam sofrendo violência colonial e tendo suas terras retiradas. Em função do peso do genocídio em Gaza – o genocídio mais recente no caso –, que se intensificou após outubro de 2023, os festivais de cinema, principalmente os festivais que as pessoas chamam de festivais classe A que são os festivais que geram mais repercussão internacional, então eu estou falando aqui de Cannes, Berlinale, Veneza, esses festivais europeus, ou mesmo Sundance nos Estados Unidos, eles tiveram relações muito ambíguas (para ser polida) em relação à cinematografia palestina.
ELP – Você poderia citar alguns exemplos?
CA – A Berlinale fez absurdos. Logo após outubro de 2023, ou seja, no começo de 2024, eles criaram narrativas para tentar equivaler o sofrimento do povo israelense ao sofrimento do povo palestino, o que é absurdo, chega a ser meio criminoso, inclusive, fazer isso. E o festival fez isso de várias formas, colocando um trailer do lado de fora na rua para explicar pessoas os “dois lados da história”, como se houvesse dois lados da história dentro de um genocídio. Além disso, puniram uma pessoa que era membro da equipe da Berlinale, e que por causa de um e-mail que essa pessoa, que fazia parte da equipe da Berlinale, mandou e que no final do e-mail dessa pessoa tinha escrito “Palestina Livre”, a diretoria da Berlinale denunciou essa pessoa que trabalhava para o festival.
ELP – E os outros Lista A?
CA – Cannes fez todo um procedimento de evitar com que as pessoas chegassem com o lenço palestino no tapete vermelho e regras às vezes não ditas, de coisas que não deveriam ser ditas em público, apesar de ter equipes palestinas, apesar de ter, inclusive, dentro daquele evento de mercado em Cannes, uma tenda para a Palestina. Então, há um tensionamento também dentro dos próprios realizadores e artistas palestinos, e instituições, até que ponto é interessante ou não estar dentro de um festival grande como esse, como a tenda de mercado? Até que ponto esse festival vai de fato escutar o que esses realizadores têm a mostrar?
ELP – Sim.
CA — Depois, temos esse filme sobre o assassinato dessa criança, um assassinato muito brutal e eu acho que o filme teve uma recepção entusiasmada de uma plateia majoritariamente europeia, em Veneza, que foi A voz da Hind Rajab. Inclusive, eu acho muito importante ressaltar que esse filme, apesar de falar de algo real, que aconteceu com a criança Palestina, que entre várias outras foi sadicamente assassinada pelo exército israelense, esse filme não é de uma diretora Palestina.
ELP – Verdade.
CA – Esse filme é de uma diretora tunisiana, uma diretora, que já tem inclusive um histórico de circulação nesses festivais classe A. Portanto, ela não é nem da região que a gente chama de região do Levante, que é a região mais próxima da Palestina, que está muito implicada com a questão palestina. A Tunísia está mais afastada desse contexto.
ELP – Entendi.
CA – Mas, esse cinema europeu, lá nos anos 70, já teve solidariedade ao povo palestino. A palavra solidariedade é importante aqui nesse contexto, porque naquela época a gente tinha diretores como o Godard e vários outros cineastas europeus – holandeses, italianos, alemães –, e de fora da Europa, também diretores japoneses, fazendo filmes em solidariedade à luta armada do povo palestino contra a invasão colonial do seu território e eu acho que hoje o cinema é essa indústria do cinema com esse circuito de festivais que produz dinheiro apenas. O cinema está sendo muito tímido e muito covarde em relação à Palestina.
ELP – Como você enxerga essa movimentação de diretoras em relação ao que acontece na Palestina e como elas escolhem distintas maneiras de contar as histórias?
CA – O cinema palestino não é uma coisa que começou agora, é uma coisa que já tem um certo tempo. Diretoras palestinas produzem linguagens que estão muito ligadas a um cinema de vanguarda, um cinema que experimenta, um cinema que tensiona algumas regras da gramática audiovisual e que estão fazendo isso já há um bom tempo. Uma das diretoras, que é diretora do Palestina 36, Aimee Marie Jacir, vem fazendo longas-metragens desde 2008. A família Jacir, tanto ela quanto a irmã dela – que é artista visual e que também trabalha com cinema, é super tradicional na cidade de Belém, na Palestina – hoje conhecida como Cisjordânia. Elas têm um instituto cultural famosíssimo em Belém, que é a casa da família Jacir e que é uma casa mais do que centenária, construída ainda na época do Império Otomano, muito antes do Império Britânico chegar na região.
ELP – Sim.
CA – São gerações atravessadas também por acesso material às coisas. Então, a Marie-Jacir teve acesso material desde pequena às coisas e ela conseguiu começar a fazer cinema já muito jovem. E começar a fazer cinema narrativo que, além de custar mais dinheiro, exige uma produção muito mais elaborada, de fazer as coisas. Por exemplo, você não pode contratar uma equipe palestina para ir com você para lá e para cá, porque têm vários lugares onde essa equipe não tem o direito de ir e vir pelo próprio território. Essas pessoas vão ser barradas nesses checkpoints israelenses. Então, eu poderia citar casos aqui, por exemplo, de diretoras que já têm uma longa trajetória, de curtas e longas metragens, como a Jumana Manna, como a Basma al-Sharif, como a Azar Hassan, e várias outras, por exemplo, que circulam e que tem produções mais robustas financeiramente, como a Larissa Sansour, que vem fazendo ficção científica, pensando a Palestina, a partir também de comissões de instituições das artes visuais. Então, tem esse cruzamento muito forte também entre essas diretoras, particularmente aquelas que fazem um cinema mais experimental e menos narrativo, com as artes visuais.
ELP – Como você enxerga essa progressiva organização do cinema palestino, com instituições como Instituto de Cinema Palestino (ICP), para a militância contra o genocídio de sua população?
CA – Seja em Gaza, seja na Cisjordânia, que vêm fazendo filmes com a certa constância, apesar de tudo, das bombas caindo e de não ter dinheiro, há financiamento sempre de fora para fazer cinema na Palestina ou pela Palestina. Isso exige uma certa benevolência de instituições que acreditam na causa e que conseguem pagar por isso daí. Acho que, por exemplo, o Palestina 36 é épico porque ele tenta narrativamente dar conta da história de um povo e épico também porque ela conseguiu ter feito esse filme e o filme foi todo filmado pós-outubro de 2023.
ELP – Verdade.
CA – É curioso porque o começo das filmagens estava agendado para dia 14 de outubro de 2023. Exatamente, uma semana antes, no dia 7 de outubro de 2023, Gaza começa a ser atacada em função das ações do Hamas e aí muda tudo! O filme ia ser todo filmado numa vila, dentro da Palestina, e toda a produção do filme precisa ser alterada radicalmente. Boa parte do filme que ia ser filmado em território palestino precisou se realocar para a Jordânia. Tudo muito custoso. Eu estou falando tudo isso porque eu vejo as pessoas achando que as mulheres fazendo cinema na Palestina é como se fosse uma exceção, e não, eu diria que é mais a regra do que a exceção. Elas são tão importantes quanto os diretores nessa produção cinematográfica. Elia Suleiman talvez seja o diretor palestino mais conhecido, justamente pela, capilaridade dele nesses grandes festivais, mas um nome como Anne-Marie Jacir é um nome tão importante quanto.
ELP – Compreendo.

Imagem de divulgação de Tudo que resta de você, de Cherien Dabis
CA – Então, eu acho que não é um movimento recente, é alguma coisa que tem acontecido há muito tempo, várias dessas diretoras são referências quando a gente vai estudar realmente linguagem cinematográfica. O Tudo Que Resta de Você, da Cherien Dabis. Ela é de família palestina, mas é isso, é outro contexto também, ela vem de um contexto de viver nos Estados Unidos, mas é fundamental que ela consiga fazer isso e que ela consiga fazer isso com um elenco palestino e chegue nesses lugares de exibições comerciais. Mas, tem um filme do Elia Suleiman, que é o segundo filme da trilogia dele, que já foi pré-indicado ao Oscar como um filme da Palestina. Isso já faz alguns anos. E esse filme, que se não me engano se chama Intervenção Divina, ele não foi selecionado para o Oscar, mas a justificativa do Oscar foi a de que Palestina, para para a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, não era um país, não era um Estado-nação e porque não era Estado-nação não podia se inscrever como representante de um país.
ELP – Entendi.
CA – Aí, eu estou querendo muito entender se o Oscar em 2026 vai reconhecer a Palestina como um Estado-nação, reconhecendo um desses filmes como um possível concorrente a melhor filme estrangeiro pela Palestina. Essa é uma questão. Porque muito está se falando dessas pré-indicações, os filmes estão lá na shortlist, e estar na shortlist significa que alguma coisa aconteceu. Mas, de um jeito ou de outro, é uma visibilidade para o filme, para o que essa diretora já vem fazendo há muitos anos.
ELP – Ah, entendi.
CA – Deixa eu falar só mais uma coisa! É fundamental pensar na visibilidade ou não que esses filmes estão tendo. Esse filme da Hind Rajab, ele teve produção de celebridades hollywoodianas. Isso é fundamental para a circulação do filme nesses festivais que a gente chama de festivais classe A. Um outro filme, que ganhou inclusive o Oscar no ano passado, o de melhor documentário, o Sem Chão (No Other Land) ganhou porque ele é um filme que conseguia falar da Palestina, mas que também tem dois diretores israelenses. Então, era um filme de dois diretores israelenses, um homem e uma mulher e dois diretores palestinos. Ali tinha uma certa narrativa de equivalência.
ELP – Verdade.
CA – Eu acho bastante complicado esse tipo de narrativa, porque não é isso.. Eu acho, por exemplo, o caso do Palestina 36 bem mais complicado, que é um filme de uma diretora palestina que há muito tempo vem fazendo filme na Palestina, que tem uma distribuidora palestina. É mais difícil esse filme chegar em lugares mais altos, porque ele vai encontrar naturalmente muito mais barreiras, mesmo tendo um elenco conhecido. Tem Jeremy Irons no filme, mas mesmo assim eu acho que ele tende a enfrentar mais barreiras.



