Collective

Festival É Tudo Verdade: Collective

Partindo do incêndio que aconteceu na boate Collective, em 2015, na Romênia, o documentário estabelece, em seu começo, uma atmosfera de denúncia. Inicialmente, o público é apresentando ao fato de que o estabelecimento não possuía medidas de seguranças corretas e que, por isso, houve uma quantidade considerável de mortes. Contudo, este enfoque é logo descartado e uma rede de corrupção nos hospitais do país passa a ser investigada. Com uma crítica incisiva ao governo, a primeira metade da projeção revela como boa parte dos feridos no acidente morreu por falta de cuidados médicos necessários.

No entanto, em um plot twist do mundo real, o Ministro da Saúde do período renuncia e em seu lugar entra Vlad Voiculescu. A partir daí, todas as tensões e críticas duras ao governo são substituídas por um olhar generoso e heroico para esta nova personagem inserida no longa. Com enquadramentos extensos e fechados, a câmera observa cuidadosamente as expressões de espanto que o homem faz, enquanto descobre cada golpe e suborno que existiam nos hospitais romenos.

Se antes o espectador acompanhava a gana dos jornalistas em desmontar o sistema hospitalar que aceitava suborno e deixava os pacientes ao léu, ele passa a ter contato apenas com o ponto de vista de Vlad. As tensões provocadas pelos os seus opositores e pela mídia ganham um tom de vilania. Enquanto isto, as ideias do ministro são retratadas de forma dinâmica e com uma música de fundo que imprime a ideia de que ele é um grande salvador e resolverá todos os conflitos.

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Além desta reviravolta, que transforma Collective em duas obras diferentes, há muita sobra de plot, elementos que não se encaixam na narrativa e pontos pouco explorados. Um exemplo é a trajetória de uma das sobreviventes. Ela está ali, retratada na tela. Acompanha-se uma sessão de fotos suas e a inauguração da exposição das imagens. Contudo, a jovem jamais é ouvida. Não se sabe a sua opinião sobre o serviço hospitalar da Romênia e nem como ocorreu seu tratamento. Inclusive, as vítimas e os seus familiares são negligenciados no enredo. Pouco se sabe sobre quem são essas pessoas, deixando suas humanidades de lado.

Todos os problemas da área de saúde do país são contados por jornalistas, médicos ou políticos. Neste contexto, talvez, a única informação de quem estava mais de perto da realidade retratada no filme é a médica que acompanhou o descaso com os hospitalizados. Ela chega a ter um encontro com Vlad para narrar tudo que presenciou, mas a câmera fica mais “interessada” em captar as reações Vlad Voiculescu do que na própria situação em si. No final das contas, a produção tem pontos positivos, quando estabelece sua atmosfera de tensão e revela questões políticas e sociais da Romênia, mas se perde ao não olhar para o todo e esquecer do próprio foco que havia estabelecido.

Direção: Alexander Nanau

Assista ao trailer!

Confira a crítica de Meu Querido Supermercado, também do Festival É Tudo Verdade!

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