A principal categoria da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas sempre dividiu opiniões entre as apostas dos críticos e fãs de cinema – em especial nas últimas 9 edições onde o número de concorrentes variou entre 8 a 10 indicados. Para não fugir dessa normalidade, a 91ª cerimônia do Academy Awards traz múltiplas incertezas. O ano de 2019 foi marcado por algumas reviravoltas nos inúmeros prêmios do cinema – sejam nas categorias correspondentes ao Oscar de “Melhor Filme” ou não. A constante da dúvida se manterá suspensa até o último minuto, momento no qual o ganhador será revelado. Até lá, os espectadores acompanharão a cerimônia com tensão diante do resultado.

Mas o que pode justificar o clima apreensivo diante do resultado do Oscar? A resposta está ligada ao histórico de absurdos e retrocessos cometidos pela premiação. Conhecida por cometer, ano após ano, algum tipo de escolha equivocada – ora sendo omissa aos escândalos de artistas, ora excluindo artistas negros das indicações – a Academia continua a viver um processo de perda da credibilidade com suas decisões. Nessa cerimônia, em específico, os organizadores já voltaram atrás em diversas deliberações por conta das críticas recebidas em plataformas digitais. A descrença no olhar retrógrado desse prêmio leva a questionamentos quanto a validade de sua autoridade dentro do próprio meio. O Academy Awards é uma das instituições hollywoodianas mais antigas que parece, em algumas situações, ter parado no tempo. Os artistas e o público, contudo, clamam por mudanças reais em suas atitudes arbitrárias.

pantera negra
Pantera Negra

A competição desse ano começa em fevereiro de 2018 com a estreia de uma das presenças mais surpreendentes da temporada de premiações. Pantera Negra chega aos cinemas para mostrar, de forma ampla e avassaladora, o quanto a sociedade, o universo cinematográfico e das hqs marginalizam uma parcela da sociedade. A expressão artística, social e representativa intrínseca à Black Panther (título original) abrem portas para infinitas discussões sobre local de fala, oportunidades, respeito e amor as memórias históricas e culturais de um povo. O longa-metragem é considerado um dos melhores filmes de super-heróis de todos os tempos porque ele se preocupa com a vida real. Pantera Negra não é uma produção feita exclusivamente para lucrar mais alguns bilhões para a Marvel. O filme se sustenta como uma obra cujas nuances e perspectivas englobam questões estéticas e técnicas do fazer cinematográfico. Ao mesmo tempo, se debruçam sobre situações sociais bem trabalhadas no roteiro dentro da exposição das novas possibilidades de figuras do herói – expandindo as vias de representatividade nas telonas.

infiltrado na klan
Infiltrado na Klan

Ao continuar a lista de indicados, o público se depara com outra obra que faz reflexões sobre o racismo. O novo filme de Spike Lee é uma cinebiografia inacreditável que retrata os absurdos do preconceito com uma inteligência inigualável. Infiltrado na Klan tem a capacidade de envolver o espectador nessa jornada satírica sobre o policial negro que enganou a Ku Klux Klan a partir de um retrato crítico e intenso da realidade. A única sensação possível após assistir BlacKkKlansman (título original) é a incompreensão diante da verdade confrontada na sala de cinema. A sacada da película é forma amena como a história é retratada seguida por sucessivos choques de realidade que petrificam o espectador.

nasce uma estrela
Nasce Uma Estrela

Nasce uma Estrela e Bohemian Rhapsody são as aparições musicalizadas desse ano. Seja pela reelaboração de uma história conhecida pelo cinema ou pela representação do percurso de uma das bandas mais marcantes da história da música, ambos os filmes usam a ferramenta musical como seu pilar de sustentação. O primeiro longa é uma demonstração surpreendente de reinvenção. O roteiro e a performance de Bradley Cooper e Lady Gaga provam o empenho da produção em tornar essa obra memorável. É fascinante a forma como a narrativa é conduzida e moldada pelas músicas. O ponto forte do longa está diretamente ligado à sua capacidade de promover uma história comum – a qual, em outro contexto, é extremamente esquecível – através de uma construção musicalizada do drama das personagens. O maior acerto da produção e, consequentemente, da direção de Cooper é a sutileza envolvente da obra que se fez capaz de entreter e prender a atenção do público apesar da frágil essência temática.

crítica bohemian rhapsody
Bohemian Rhapsody

Em contraponto à A Star is Born (título original), Bohemian Rhapsody não executa uma narrativa tão verossímil e cativante, mas investe no apelo afetivo do espectador. O enredo do longa por vezes é monótono e perde a força atrativa. São nessas brechas que os realizadores do projeto percebem a necessidade do uso das memórias afetivas para alavancar a obra. A produção carrega a sua ideia com o encantamento que o mundo tinha pelo Queen. Bohemian trabalha magistralmente a consagração de seus homenageados e é assim que o longa capta de volta o interesse do público. A contemplação do acontecimento incomum que foi Freddie Mercury e o Queen se personifica durante o filme e o sustenta. O longa-metragem usou a força de sua temática e investiu nos quesitos técnicos para alavancar sua proposta um tanto delicada.

green book
Green Book: O Guia

A presença de Green Book: O Guia nas premiações é, por si só, polêmica. O longa-metragem retrata de maneira leve e sutil a jornada de autoconhecimento e transformação das personagens vividas por Viggo Mortensen e Mahershala Ali. Os problemas do filme começam com a observação dos seus acontecimentos e abordagens. Apesar de levantar a pauta do racismo dos EUA na década de 1960, a produção apenas pincela essa situação como pano de fundo para um contexto mais existencial sobre a essência e vida das personagens principais. Além dessa problemática, membros da produção da película estão envolvidos em casos de assédio e xenofobia. Ou seja, existe uma contradição entre o que é pregado pelo filme e a realidade de sua criação que é impossível de se ignorar. A falta de aprofundamento nas questões intrínsecas ao projeto e a sua má fama por conta do diretor e produtor executivo, criam um dispendioso embargo para que o longa alcance o seu ápice em conteúdo, qualidade e prêmios.

roma
Roma

O ponto fora da curva dessa premiação é o produto mexicano da Netflix. A plataforma de streaming deu ao Oscar a desagradável obrigação de indicar um produto não convencional a 10 categorias. Roma está entre os indicados mais cotados por sua representação dentro e fora da tela. A obra de Alfonso Cuarón é uma peça de arte perfeitamente lapidada. A concepção, execução e essência do longa transformam ele num projeto completo e diferente. Os quesitos técnicos, estéticos e humanísticos são contemplados com uma maestria impressionante. Roma é uma obra-prima sensível que, com muita simplicidade e despretensão, toca o coração do espectador pela sua delicadeza sem igual. A narrativa envolvente carrega o público do início ao fim diante das vivências mais cotidianas do ser humano sem nunca perder a sua beleza. Cuarón deu vida a obra perfeita que a Academia não pôde ignorar.

a favorita
A Favorita

Outro produto magistral de 2018 foi o drama histórico de Yorgos Lanthimos. The Favourite (título original) carrega uma essência extremamente versátil. A linguagem do filme incorpora os traços fundamentais de Yorgos com muita sutileza. O exagero e a extrapolação do diretor estão presentes em medidas exatas para arrebatar a atenção do espectador. Através de uma espécie de tragédia cômica, o longa-metragem constrói sua sólida plataforma de criações dignas de elogios. Assistir ao longa é uma experiência estética e narrativa sensacional. Com 9 indicações, A Favorita transporta o público para um cinema original, onde o conteúdo não sobressai o conceito e nem por isso a última deixa de ser trabalhada da melhor forma.

Vice
Vice

A última estreia da lista de indicados a “Melhor Filme” foi a nova cinebiografia de Adam McKay. Vice é fruto do trabalho singular de McKay. Metalinguístico, irônico e cheio de informações; esse é o resumo do que o longa carrega em sua essência. Toda essa elaboração diferenciada atrelada ao roteiro inteligente tornam o resultado semântico e visual do filme algo sem igual. A expressão cinematográfica do diretor causa estranheza por sua montagem não convencional e pelas características já citadas. Essas são, contudo, algumas das razões que destacam a produção e fazem dela uma das indicadas ao maior prêmio do cinema.

Diante desse cenário, existem três polos de força nessa corrida pela estatueta. Infiltrado na Klan, A Favorita e Roma representam os principais concorrentes ao prêmio de “Melhor Filme”, cada um com seus pontos mais fortes. BlacKkKlansman representa um filme contundente regado de conteúdo e crítica social sobre realidades similares do passado e presente. The Favourite ocupa a posição de produção acessível que retrata os deslumbres humanos, o caos e a ignorância das guerras e os jogos de sedução e poder que permeiam as relações interpessoais – tudo isso tendo a Inglaterra do século XVIII como pano de fundo. Roma, por sua vez, está encarregado do lugar de obra-prima – a qual contém um valor artístico e social indiscutível – levando a crer que o seu nome seja anunciado ao final da cerimônia. As questões circunstanciais e convenientes da Academia deixam, no entanto, incertezas apesar da unanimidade de vitórias que Roma teve em outras premiações. A espera só cessará no domingo (24) quando o Oscar for entregue ao seu próximo escolhido. O único fator que se espera do Academy Awards é que ele não se mostre mais omisso a nada do meio cinematográfico e que ele escolha o vencedor de 2019 por seu merecimento de acordo com critérios exclusivamente técnicos e artísticos.

Pin It on Pinterest