Entre os dias 30 de outubro e 06 de novembro, aconteceu, em Salvador e Cachoeira, o Festival Internacional Panorama Coisa de Cinema. Em sua 15ª edição, o evento trouxe a exibição de longas e curtas-metragens baianos, nacionais e internacionais. Baseando-se nos oito dias de projeções acompanhadas em terras soteropolitanas, a autora deste especial selecionou os curtas que mais chamaram a sua atenção, dentro das obras escolhidas pela curadoria do próprio Panorama.

Entre trabalhos das competitivas com obras brasileiras e especificamente apenas da Bahia, cinco produções foram destacadas neste texto. Confira!

Negrum3

Negrum3: Trafegando por diferentes linguagens para retratar um mesmo tema, o diretor Diego Paulino traz em seu trabalho o que significa a existência e a ocupação de espaço dos corpos negros, principalmente daqueles que fazem parte da comunidade LGBTQ+. Trazendo o afro futurismo, Paulino inicia a projeção com uma performance da protagonista, que se olha o espelho, num cenário neutro, cheio de figurinos. Inicialmente, os quadros são mais parados, majoritariamente com planos médios. Enquanto os discursos sobre o racismo, homofobia e transfobia vão sendo expostos no filme, a dinâmica torna-se uma crescente, que explode na tela, junto com as angústias da personagem, seguidas do letreiro inicial. A partir daí, chega a parte dois e vê-se a Eric mais delineada dentro de algo mais voltado para seu cotidiano, suas preferências de maquiagem e estilo, suas vivências. A estética chega mais próxima do documental. É possível perceber também que os coloridos começam a adentrar nas sequências. Por fim, vem o clímax do trabalho, quando a Aretha Sadick e a Eric cantam e dançam, em um espetáculo de cores, temperaturas e musicalidade. Apesar da estrutura blocada trazer uma sensação de falta de amarração na costura da narrativa, cada ato se basta e poderia ser uma produção audiovisual com elementos técnicos e discursivos de qualidade.

Ilhas de Calor

Ilhas de Calor: Adolescência, risadas, solidões e preconceitos. Iniciando o curta com a poesia de Fabrício, personagem central de trama, o diretor Ulisses Arthur (CorpoStyleDanceMachine) instala imediatamente o tom da obra. O cineasta traz um olhar realista, porém sensível sobre as homofobias e transfobias “cotidianas”, aquelas que aparecem em uma risada ou uma exclusão dentro de alguma atividade diária que poderia ser vivida com tranquilidade. Apresentando-se como uma pessoa quieta e observadora, Fabrício traz o silêncio consigo, mas isto é transmitido sem trazer uma personalidade preenchida de passividade. Pelo contrário, a sua firmeza vem até acompanhada de embates físicos e verbais, quando seu corpo ou seu caminho são invadidos por algo ou alguém. Mesmo com uma temática forte e dolorosa, o espírito da juventude está presente. Seja no rap, que revela preocupações dos jovens contemporâneos, no empurra empurra para ver quais colegas estão ficando na área escondida da escola ou na crush incerta que Fabrício tem por Anderson. Ao mesmo tempo, a obra não equipara a vida e sentimentos de todos os estudantes aos de Fabrício, que em sua poesia, sua postura corporal e o grito quase final em forma de canção cravam na tela que o olhar e as atitudes da sociedade chegam-lhe diferentes e machucam, mas não sem ter muita luta para enfrentar tudo isto. Para contar esta história e transmitir estas sensações, a equipe se vale dos usos dos zooms in e out, do jogo com ambientes mais ensolarados e mais escuros e a câmera mais estática ou que se movimenta em travelings ou câmera na mão, enclausurando e libertando a personagem principal a todo instante.

Rã

Rã: Dirigido por Ana Flávia Cavalcanti e Juli Zakia, o filme mostra a história de uma família, composta por uma mãe e duas filhas, e a casa que elas moram. Este ambiente é uma espécie de start para a trama. A partir dali, vê-se um cotidiano de luta por parte da matriarca para manter as suas crias. A relação dela com os amigos também parece ser de laços fortes. A forma como a narrativa se encaminha, numa crescente – ainda que também comece com uma cena forte -, revela a consciência sobre progressão impressa no roteiro. A aproximação com a realidade de lares brasileiros também vem do fato de Cavalcanti trazer para o audiovisual uma lembrança de sua infância e do momento de felicidade que teve, apesar do pouco dinheiro que tinha. Este tipo de detalhe relacionado aos recursos financeiros das personagens é notado também na equipe de Direção de Arte e Figurino. O olhar é minucioso ao mostrar, por exemplo, com o quê as meninas brincam, a farda que é também é usada como pijama ou nas bacias nas quais a carne é levada. A direção é correta e simples, sem grandes firulas, assim como o enredo. Mas, o ganho aqui é na sensibilidade de como contar a história e as miudezas que engrandecem o relato filmado e aproximam o espectador da vivência das pessoas que estão sendo retratadas na produção.

 

Eu, Minha Mãe e Wallace

Eu, Minha Mãe e Wallace: Dirigido pelos Irmãos Carvalho (Chico), o filme mostra um pai que encontra a sua filha e a mãe dela, depois de passar onze anos preso. Apesar do curta demorar um tanto para engatar e não entregar o protagonismo que o título parece demonstrar com o “Eu”, a obra está nesta lista por alguns fatores. O primeiro ponto destacável são as atuações de Noemia Oliveira (A Guiana Sumiu) e Fabrício Boliveira (Simonal). Entre pausas e olhares que se encontram e se afastam, a dupla consegue demonstrar a dinâmica de um casal que esteve junto, mas há muito tempo, como se a conexão ainda existesse entre os dois, porém com o medo e a dúvida também se fazendo presente, além dos embates de olhares. Outro fator importante é a fotografia de Safira Moreira (Travessia), que demonstra a consciência de que está é uma produção na qual a foto tem um alto significado, as escolhas de Moreira transmitem a mistura de nostalgia, melancolia e esperança que as personagens parecem demonstrar em seus diálogos, corpos e expressões. Algo que também pode fazer o público lembrar da própria relação com a fotografia analógica, a memória e a família.

 

Panorama Internacional Coisa de Cinema

Necropolis: Em um mundo distópico, apocalíptico e cheio de zumbis, Milena (Ruth Maciel) precisa sobreviver no semiárido nordestino. Preenchido de recursos estilísticos do terror, como uma panorâmica vertical, com zoom out que traz um plano geral, ao lado de uma música incidente de tensão, que revela que o local na qual história se passa está inóspito, assim como acontece no início desta projeção. O diretor, ítalo Oliveira, consegue transmitir o medo e a luta da protagonista, não apenas nos instantes de desespero dela, como nas escolhas de locação, de caracterização da personagem e dos momentos que os ruídos em meio ao silêncio aparecem. O único ponto que a qualidade da obra cai é no flashback,com diálogo expositivo e atuação artificial, que traz um tom didático e de fala arrastada, quase como se buscasse desenhar para o público o discurso que deseja ser transmitido. Porém, sem esta sequência, Necropolis já é claro no que ele pretende tratar, seja de luta, resistência ou força.

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