Dora (Sinara Teles) é uma andarilha e Suçuarana insere o espectador na caminhada de sua protagonista. Através de uma direção que foca em planos mais longos e abertos, o longa-metragem dá a oportunidade do espectador investigar a jornada da personagem central, compreendendo, aos poucos, suas motivações e emoções. Essa entrega progressiva é um dos pontos qualitativos mais altos da obra, porque camadas sobre a realidade de Dora são reveladas e a imersão com a história se estabelece cada vez mais, à medida que a trama avança.
Assim, primeiro, há um mergulho no olhar de Dora em relação ao mundo. A jovem é construída com pausas extensas, nas quais ela observa o seu entorno, como se desconfiasse de tudo. Essa característica já pontua o tom da projeção, ela é arisca, sagaz e atenta, mas também solitária e desconfiada. A partir desta lógica, há aqui um acompanhamento dos deslocamentos das personagens em cena, enquanto a câmera fica estática, o que eleva essa potencialidade de contemplação.
A plateia recebe quadros longos, nos quais as emoções de Dora podem ser investigadas, por exemplo, tanto na cena quanto na contracena. Juntamente a isso os tons creme que a cercam, revelam um ambiente seco e inóspito, que parece habitar tanto seu exterior quanto interior. Ao mesmo tempo, o calor e a aparição do cachorrinho Encrenca anunciam a ampliação da complexidade narrativa. Dentro desta busca de Dora por um local que ela não sabe onde é, afetos são encontrados e vão se estabelecendo.
Pari passu, a frieza e o distanciamento com o outro também são inseridos na trama, com figuras que se mantém isentas de contribuir com a trajetória de Dora. É assim que Clarissa Campolina (Girimunho) e Rodrigo Sorogoyen (As Bestas) vão construindo este road movie. Diversos elementos do subgênero estão ali: a carona que salva, o pet que apazigua o coração, o encontro com pessoas que trazem a vontade de cessar a caminhada e cessar. Não há surpresas quanto ao que vai aparecer na tela em termos de história.
Contudo, essa previsibilidade não é incômoda no contexto de Suçuarana porque o desejo da produção parece ser o de investigação de personagem e universo ficcional. Mais do que saber se Dora seguirá na estrada ou se ficará com Encrenca, é mais relevante analisar suas respirações e olhares, que lembram como a vida é inconstante e uma sucessão de escolhas. Dora está ali, no meio do nada, sempre andando.
Muitas vezes, não tem onde dormir e o que comer. Ainda assim, ela é posta no filme sempre como agente de suas ações e como um indivíduo crítico. É por esta razão que o longa se destaca por conseguir evidenciar tensionamentos sociais e políticos, mas sendo justo na maneira de representar esta mulher que está à margem, que procura resposta para as suas angústias e não precisa da condescendência do público.
Com toda esta dinâmica, entre convocar a sensorialidade com o visual e discutir a solitude e as possibilidades da jornada de uma mulher, Suçuarana é introspectivo e conciso. O seu discurso consegue colocar a realidade do povo brasileiro, com sutileza e completude. Talvez, o longa pudesse arriscar mais na construção dos relacionamentos de Dora com as outras personagens, porque eles parecem um tanto artificiais em algumas sequências.
Ainda assim, essa característica não compromete o todo e esta é uma produção que vale a pena ser consumida, seja pelos quesitos estéticos quanto por sua própria história.
Direção: Clarissa Campolina, Rodrigo Sorogoyen
Elenco: Sinara Teles, Carlos Francisco, Karina Silvério Augusto



