Crítica: Nada

Crítica: Nada
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Em meio ao silêncio e à memória, Adriano Guimarães (Filme Ensaio) entrega um longa-metragem contemplativo e introspectivo. Essa escolha de roteiro e direção causam um espaço para o que espectador reflita profundamente sobre a narrativa. No entanto, apesar de uma boa intenção da produção, a sutileza que ele parece propor se esvai na artificialidade da encenação. Este filme é uma adaptação da peça homônima e diversos elementos da mesma parecem ter vazado para o longa. Esta que vos escreve não gosta de usar a frase “é muito teatral”, porque isso pode ser um fator positivo. Mas, nesta obra, esta característica chega negativa.

Como imprimir suavidade com atuações exageradas e diálogos artificiais? O roteiro de Emanuel Aragão (Minha Vida em marte) falha é reproduzir o realismo necessário para a composição estética e as sensações que a produção precisa convocar. Enquanto a fotografia de André Carvalheira (Capitão Astúcia) é profunda e elegante, o texto e a mise-en-scène entregam demais. Ou melhor, a mais. Neste sentido, os deslocamentos do elenco deveriam ser menos marcados. Falta fluidez nestas movimentações. É por isso que Nada ganha bastante quando os planos são mais longos e as personagens estão paradas.

Ao mesmo tempo, Bel Kowarick (Ana) e Denise Stutz (Tereza) viram presenças difíceis na tela, principalmente Bel, que possui mais falas. Para que algo tenha ritmo é necessário que se proponha uma variação de velocidades. O elenco do longa f-a-l-a t-u-d-o c-o-m p-a-u-s-a-s. Quando tudo é frisado, tudo deixa de chamar atenção. É por esta razão, principalmente, que a sessão se transforma em exaustiva e sacal. As expressões faciais fomentam essa sensação, deixando um desejo de observar mais delicadeza nessas composições. Há uma ausência também de realocar toda essa força na elaboração das irmãs Ana e Teresa.

Apesar do distanciamento da dupla, cenas podem ser construídas através de um jogo cênico entre intérpretes. As atuações parecem todas individualizadas, solitárias, sem uma dinâmica mais pensada de contracena. E onde que o teatral entra nisso tudo? Justamente no uso equivocado do aumento de gestos e da intensidade dos deslocamentos. A câmera capta tudo!! Não é necessário que se faça força para que a  “senhorinha lá do fundo da plateia” veja. Falta aqui toda a suavidade que é imposta pelo silêncio e pelas temperaturas usadas no filme. E que é importante destacar como fator positivo neste contexto.

A mescla de cores terrosas com ciano embalam o público nessa melancolia aterrada, de quem é afetado por lembranças, como em um rito fantasmagórico. Essa construção de sentido da luz e das tonalidades, misturada com a decupagem de Guimarães, estabelecem certo clima de terror, de medo pelo o que foi e pelo que virá, como acontece na vida, porém aqui com uma duração estendida, para que o pensamento corra no caminho das profundezas reflexivas da alma. É uma pena que toda essa ambientação seja interrompida pelo exagero dos outros quesitos da obra. Mas, ainda há mais um ponto positivo em Nada.

A estratégia de emular um documentário é uma boa ideia, porque cria respiros para a plateia e eleva a geração de sentido. Além das personagens que aparecem nestes trechos terem uma prosódia com maior fluidez, a lógica de relato aproxima quem assiste do que está sendo contado, contribuindo para um conteúdo com um resultado mais relacional. Por isso, à medida que a história avança, uma aproximação é criada, melhorando a qualidade da sessão. Ainda assim, é difícil avaliar Nada. Enquanto existe uma premissa relevante e um desejo iminente de criar uma suspensão com silêncios perturbadores, falta trama aqui.

Consequentemente, falta jornada do herói e desenlace. Ao final da projeção há uma percepção de que o tempo se foi e não houve investigação. Os fatos são postos, porém não são explorados. Adriano Guimarães revela um talento bruto, mas ele necessita olhar mais para os recursos cinematográficos de encenação e da linguagem do cinema.

 

Direção: Adriano Guimarães

Elenco: Bel Kowarick, Denise Stutz

Assista ao trailer!