O cinema faz uso do humor de diferentes formas e não há um mais correto do que o outro. Seja ele sarcástico, escrachado, romântico ou dramático, o humor pode ser um veículo importante para falar de temáticas mais intensas, de uma maneira suavizada. As Trapaceiras, no entanto, foi incapaz de ver o limite esperado ao colocar um personagem no ridículo o tempo todo, em especial por se tratar de uma minoria.

Josephine (Anne Hathaway) e Penny (Rebel Wilson) são duas trapaceiras profissionais, cada uma ao seu estilo. Enquanto a primeira é organizada e eficiente, a segunda deixa o barco ser levado como a situação manda. Elas acabam cruzando o caminho uma da outra e trabalhando juntas em um golpe.

O filme, em si, não se leva tão a sério e isso é bom. A proposta dele é essa mesmo, de ir para o exagero e personagens caricatos. Um verdadeiro dramalhão novelesco que agrada muitas pessoas (eu, inclusive). Mas até a performance expositiva precisa ter um limite.

Como mulher, não consigo entender o que leva Rebel Wilson (A Escolha Perfeita), uma atriz que tem algum potencial, a sempre fazer o mesmo papel de “gorda patética alvo de piadas”, que está na trama apenas pelo humor. A sociedade vem problematizando todas essas questões do papel da mulher e como o corpo é uma ferramenta de imposição e manipulação. Aí uma atriz de Hollywood, que ocupa uma posição de privilégio de fala, ao invés de participar de roteiros que coloquem a mulher gorda no lugar de normalidade que lhe cabe (sendo desejada, normatizada, bem sucedida, etc), escolhe fazer sempre o mesmo papel.

Anne Hathaway (Os Miseráveis), por sua vez, segue sendo um grande alívio de atuação. Ela veste bem o papel exagerado de sua personagem, mas sem cair no ridículo. É uma cafona com estilo. O problema mesmo está no roteiro, que não ajuda nenhuma das duas. É fraco e sem atrativo real. A ideia de humor se perde e o espectador passa mais de 90% do tempo sem dar uma única risadinha. E isso é extremamente problemático, já que o humor escrachado exige, minimamente, boas gargalhadas.

A finalização deixa ainda mais a desejar e, de novo, coloco aqui o papel da mulher. Um filme que tem duas protagonistas femininas fortes, interpretadas por atrizes igualmente fortes, chega ao ponto final em que um homem surge e salva a cena. Como se toda a competência delas não fosse o suficiente para superar o masculino. E sim, isso incomoda demais. Talvez se a gente tivesse rido bastante, isso passasse um pouco mais batido. Mas definitivamente não é o caso.

Por fim, Chris Addison, responsável pelo excelente seriado Veep, nos apresenta um trabalho pequeno em As Trapaceiras. Esperamos constantemente por uma melhoria que não vem, uma empolgação que morre na maré mansa. É extremamente ineficiente.

Direção: Chris Addison
Elenco: Rebel Wilson, Anne Hathaway, Alex Sharp, Dean Norris, Casper Christensen, Ingrid Oliver, Nicholas Woodeson

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