O universo de super-heróis da DC passou por dificuldades para consolidar suas histórias no cinema. Apesar de seus quadrinhos serem sucessos de vendas desde os primeiros lançamentos na década de 1930, suas representações cinematográficas nunca seguiram o mesmo padrão. A DC e sua conturbada jornada de adaptações teve início em 1951 com o longa independente baseado nas hqs do Homem de Aço. A primeira leva de filmes carro-chefe da DC foram também adaptações das histórias do Superman com Christopher Reeve como a personagem-título. A partir daí, com exceção dos longas-metragens do Batman dirigidos por Tim Burton e por Christopher Nolan, os lançamentos com a logo da DC Films foram uma sucessão de fracassos de público e crítica.

O processo de revitalização da DC começou em junho de 2013 quando foi lançada a primeira produção do Universo Estendido DC (DCEU). O Homem de Aço foi o pontapé inicial para uma nova empreitada da DC Films em parceria com a Warner Bros. O DCEU, apesar de remodelado, ainda sofreu com problemas administrativos. As mudanças de diretores em meio a produção, as intermináveis refilmagens, a dificuldade de estabelecer a linguagem e o tom do universo e a própria construção de algumas histórias foram erros recorrentes em Batman vs Superman (2016), Esquadrão Suicida (2016) e Liga da Justiça (2017) – sendo essa última narrativa aquela com melhor desempenho de produção. Ou seja, dentre os longas lançados até o ano passado, apenas O Homem de Aço e Mulher Maravilha (2017) foram corretos na execução e, mesmo assim, só Wonder Woman (título original) conseguiu cativar o público.

A conjuntura criada pelos resultados insatisfatórios das produções interfere no futuro da DCEU. Os fãs se tornaram completamente desacreditados quanto a possibilidade de um acerto para o universo – em especial após as notícias sobre a saída de Ben Affleck e Henry Cavill, que é mais uma demonstração de desorganização. Eis que, diante de todo esse desastre, surge a estreia do que promete ser o início de um novo curso para o DCEU. A materialização do Aquaman nos cinemas é um feito jamais visto na história das adaptações das hqs da DC – com exceção das animações onde a personagem aparece em diversas produções. A ideia da personagem vivida por Jason Momoa ter um longa-metragem é, por si só, uma situação ruim ao contexto já complicado da DC Films.

O Aquaman nunca foi um dos super-heróis mais queridos e/ou famosos da Liga da Justiça. Além disso, a interpretação dada a ele em Justice League (título original) se distancia do que já havia pré-estabelecido no imaginário dos fãs. Momoa deu vida a um Arthur Curry completamente diferente o que, em 2017, foi alvo de críticas sobre a primeira aparição do herói. O resultado de Aquaman tem, contudo, o papel fundamental de acabar com todos os preconceitos construídos sobre a personagem, a interpretação do ator e o futuro da DCEU. O novo sucesso da Warner Brothers Pictures chegará aos cinemas brasileiros nessa quinta-feira (13) preparado para traçar um caminho de esperança aos fãs do universo.

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A terra e o mar estão prestes a entrar em um conflito mortal. O governante de Atlântida, Orm (Patrick Wilson), declara guerra aos habitantes da terra se nomeando Mestre do Oceano e a única salvação para os sete mares. Essa empreitada contra os humanos é, na verdade, um plano para controlar o reino dos mares. Arthur Curry (Jason Momoa), conhecido pelos humanos como Aquaman, é procurado pela princesa Mera (Amber Heard) para iniciar uma jornada em busca do artefato que provará a sua linhagem real e, consequentemente, seu título como governante de Atlântida. Cabe a Arthur, assumir o seu posto como herdeiro do reino dos mares, derrotar o seu meio irmão Orm e estabelecer a paz entre os povos da terra e do mar.

Contrariando todos os palpites e olhares pessimistas para a produção, Aquaman é uma obra belíssima que abraça o fazer cinematográfico sem perder nada da magia das hqs. A DC Films parece ter finalmente encontrado o seu caminho. O resultado visto com o filme é uma aventura indescritível repleta de cores e vida. A semelhança do design de produção com os quadrinhos é assombrosa. A sensação do espectador é uma espécie de viagem ao imaginário da infância, onde tudo é grandioso e mágico. A representação visual do mundo aquático é tão bela quanto as elucubrações de Júlio Verne sobre as profundezas do mar.

A Warner Bros. e a DC Films não mediram esforços para enfim criar um produto correto e sedutor. Cada uma das partes da produção está impecável. A fotografia, montagem, o som, elenco, roteiro, a direção e os efeitos especiais – o que é relevante depois de Liga da Justiça. Todos os elementos da produção foram bem pensados e executados. O resultado desse cuidado permitiu que a DCEU elaborasse uma das melhores adaptações já feitas – mesmo quando comparado ao excelente trabalho de Mulher Maravilha.

A materialização desse universo foi orquestrada pelo visionário James Wan. A presença do diretor foi fundamental para a criação desse olhar único acerca do reino de Atlântida e sua magia. Mais uma vez, a escolha de um diretor diferente criou – assim como a presença de Patty Jenkins em Wonder Woman – um novo caminho para o herói. Wan tem créditos infindáveis por esse filme, mas o maior de todos é pelo resultado final. Talvez a produção da história de Arthur Curry seja uma das mais difíceis dentro do universo. A maneira como ele conduziu a narrativa mesclando as memórias da personagem de Momoa com a jornada do herói foi brilhante. Ademais, James Wan entregou ao público algumas das melhores sequências de luta e perseguição – como o primeiro confronto entre Orm e Arthur e a batalha na Sicília.

A parceria de David Leslie Johnson-McGoldrick (Invocação do Mal 2, de 2016) e Will Beall (Esquadrão Suicida, de 2013) rendeu um fruto fantástico. A beleza do trabalho dos roteiristas está na sensibilidade da fantasia criada por eles. A narrativa construída foi cautelosa e precisa nas escolhas. A construção da personagem principal e o confronto de seus dois mundos foi bem elaborado. A ideia de construir uma perfeita jornada do herói foi fundamental para a condução desse trabalho.

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Os demais setores da produção obtiveram um desfecho satisfatório. A fotografia e o design da obra deram ao filme a vivacidade necessária para honrar os quadrinhos. A música composta por Rupert Gregson-Williams segue o seu interessante trabalho feito no longa de Patty Jenkins e ajuda a compor a personagem de Momoa. A maquiagem, a cenografia e os efeitos especiais foram incontestavelmente bem feitos. Todo o trabalho para criar as criaturas marinhas (dos animais aos monstros), dar vida aos cenários espetaculares do reino marinho e manter essa fantasia real merecem aplausos.

O elenco de Aquaman é uma mistura interessante. A escolha para compor cada uma das personagens não poderia ter sido outra. Willem Dafoe em sua inédita aparição como mocinho de uma trama dessa vertente vive Vulko, com sua usual eficiência. Nicole Kidman uso seus breves momentos em tela para emocionar o público com o seu talento indiscutível. Yahya Abdul-Mateen II se junta ao elenco para dar vida – com um interessante background story – a um dos inimigos mais marcantes do rei dos mares, o Manta Negra. Amber Heard é assustadoramente parecida com Mera e transformou, com a ajuda do roteiro, sua personagem em mais uma poderosa heroína da DCEU. Até mesmo Dolph Lundgren, o eterno Ivan Drago de Rocky IV (1985), fez uma participação interessante.

Os destaques desse elenco vão, contudo, para Patrick Wilson e Jason Momoa. É inevitável perceber que James Wan quis estar rodeado de pessoas conhecidas nessa difícil empreitada e a escolha de Wilson comprova isso. A questão acerca do ator é a sua camaleônica atuação quando comparada aos trabalhos de terror em parceria com Wan. Quanto a Momoa, ele está fenomenal. O que era posto em questionamento pela participação de Aquaman em Liga da Justiça é transformado na interpretação de Jason Momoa para a personagem – e isso é uma das melhores sacadas da produção. A nova perspectiva dada ao rei dos mares é uma ideia brilhante dos produtores para lidar com o problema de identificação com a personagem. A partir desta versão de Jason, o olhar sobre o Aquaman será outro.

A estreia de Aquaman é uma das muitas vitórias que a DC terá daqui para frente caso siga trabalhando dessa forma. O sucesso do longa é um dos fatores que fará o público confiar no próximo filme da DCEU, Shazam! – que será lançado em janeiro do ano que vem –, e se manter fiel às suas produções futuras. A história estrelada por Jason Momoa é o melhor presente de Natal que a Warner/DC poderia dar aos fãs das hqs. Há anos o público espera por trabalhos desse calibre e não poderia existir apenas um. O novo caminho criado para o DCEU (re)começa nesta quinta-feira.

Assista ao trailer!

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