Crítica A Única Saída

4.5

Park Chan-wook é um grande diretor. Oldboy (2003), A Criada (2016) e Decisão de Partir (2022) são alguns dos seus títulos mais famosos e que conseguem fazer críticas sociais profundas, ao lado de um desenvolvimento artístico sublime. No entanto, talvez, o artista tenha alcançado seu auge no presente momento, com seu novo filme, A Única Saída.

Em uma releitura de O Corte (2005), de Costa Gavras, o público se depara com uma versão um tanto mais absurdista da história e com a inserção de uma visão contemporânea sobre as mazelas da sociedade. Aqui, há um azul imenso e cheio de camadas para retratar a frieza humana das classes abastadas. 

Dentro desta lógica do absurdo, Park explora a fragilidade do caráter da sociedade, olhando para o individual e para o coletivo de forma crítica e cruel. Essa perspectiva do cineasta está presente também na escolha em utilizar planos mais abertos. A quantidade de espaço que o elenco tem para se deslocar na tela é grande e isso aumenta a sensação que ele deseja passar.

Há o egoísmo e a ausência de escrúpulos, mas também existe uma solidão profunda nessa dicotomia entre ser feliz e fingir que se é. É por isso que Park parece deixar que as suas personagens ocupem esses espaços largos e os coloca para cair e correr a todo tempo. A ideia do vazio e do desespero para ser aceito estão nessas marcas.

Ao mesmo tempo, também é preciso ressaltar que o diretor inicia o longa-metragem com temperaturas bem solares. A vida de Man-su (Lee Byung-hun) antes da demissão era como um belo dia de verão. Após a dispensa, aí sim, temos o azul cobrindo o ecrã. Por fim, após sentir que venceu a batalha do capitalismo, há um marrom pálido que ocupa o quadro. Assim, as transformações de Man-su são refletidas nessas temperaturas.

Em termos de enquadramentos, é necessário ressaltar que Park se vale de close-ups, mas eles são certeiros. Não há desperdícios aqui. O tempo que o espectador terá para ver estas figuras de tão perto é, em sua maioria, nas grandes viradas da trama. Alguns exemplos são quando Man decide eliminar seus concorrentes e quando ele pensa melhor antes de jogar o vaso no seu rival. 

Neste sentido, em termos de narrativa, o roteiro cria uma progressão interessante, na qual o riso passa a ser substituído pela respiração tensa. De alguma forma, o cômico cria a relação da plateia com esse protagonista sórdido e vil. Quando o mesmo extrapola todos os limites morais, o clima de suspensão é estabelecido, porque essa cumplicidade foi construída com calma. 

Ao mesmo tempo, ainda que muitas pistas sobre o caráter destas personas seja entregue logo nos primeiros minutos de exibição, o enredo continua trabalhando nas profundidades delas. Há sempre um ponto de vista novo sendo instaurado, o que também eleva a qualidade deste nó e de seu desenlace.

Desta forma, A Única Saída é uma produção cheia de detalhes, como a sua música incidental irônica ou um elenco coeso e intenso, que a faz uma obra genial. Ainda que peque por desequilibrar a comicidade em algumas sequências – como nas cenas do roubo dos celulares –, o longa consegue prender a atenção de quem assiste, criticar o que há de pior no mundo e ainda saber conduzir bem os aspectos formais.

 

Direção: Park Chan-wook

Elenco: Lee Byung-hun, Son Ye-jin, Woo Seung Kim

 

Assista ao trailer!

 

Crítica A Única Saída
4.5