Crítica: 120 Batimentos por Minuto

Destaque na última edição do Festival de Cannes, 120 Batimentos por Minuto se passa no início dos anos de 1990, logo no princípio do engajamento político após a epidemia da AIDS que tomou o mundo na década anterior. O filme traz o cotidiano de um grupo de ativistas do Act Up de Paris que promovem reuniões e manifestações a fim de fazer com que a população tome conhecimento da prevenção ao HIV e também pressionar autoridades públicas a promoverem políticas mais eficazes no tratamento dos doentes.  Logo quando o filme foi exibido em Cannes, muitos pensavam que o longa de Robin Campillo conquistaria o júri presidido por Pedro Almodóvar, sobretudo por trazer temas que por tantas vezes estiveram na ordem de preocupações do cineasta espanhol. O filme não ganhou a Palma de Ouro, que ficou com The Square: A Arte da Discórdia, mas fez uma “festa” bonita no festival com quatro prêmios, entre eles o grande prêmio do júri e a Palma Queer.

É compreensível as razões pelas quais o filme tocou tantas pessoas. Há temas palpitantes que mobilizaram a sociedade num passado não muito distante e que reverberam no mundo e nas relações sociais até hoje. Por trás de toda a agitação do ativismo do Act Up de 120 Batimentos por Minuto, está um preconceito contra homossexuais que, instantaneamente se associa à AIDS logo no auge da mesma, gerando um desinteresse público sobre o tratamento da síndrome, algo que complicou a condição dos seus portadores, sobretudo porque a indústria farmacêutica e os planos de saúde, elementos centrais desta realidade, na maioria dos casos, estavam mais preocupado com seus “cofres” do que com os principais afetados pela epidemia. Foi um caso sério de saúde pública agravado pelo preconceito. Ainda assim, o diretor e roteirista Robin Campillo não faz um filme essencialmente preocupado com a questão gay, ainda que o preconceito contra homossexuais assuma uma via tangencial, o que interessa em 120 Batimentos por Minuto é entender o contexto histórico da AIDS no momento em que sua história se passa, além de compreender as reverberações no presente de tudo isso.

A estrutura de 120 Batimentos por Minuto apresenta as ações do Act Up em diversas frentes, seja congressos científicos, passeatas gays, festas de executivos da área de saúde e reuniões dos chefões da indústria farmacêutica, que são intercaladas com os intensos debates no grupo, discussões que, muitas vezes, não tendiam ao consenso já que o coletivo era formado por diferentes cabeças que, consequentemente, tinham diversas formas de entender o que de fato seria efetivo socialmente entre as ações. Normalmente, nesses atritos entre os integrantes do Act Up o filme produz reflexões entre argumentos e contra-argumentos que se revelam eficientes para o público dimensionar o difícil cotidiano de quem é portador da AIDS e convive com as dificuldades da síndrome. Um olhar para a realidade daquela época (início dos anos 1990) que, por sinal, não fica isolado naquele período, pelo contrário. Através da história, recobramos a importância da não repetição de determinados erros que foram dissolvidos no passado, assim como tomamos consciência, infelizmente, de que alguns seguem sendo perpetuados cotidianamente.

120 Batimentos por Minuto não se deixa perder no vazio do relato do tempo ou do entusiasticamente passional argumento político. Aos momentos que descrevemos anteriormente são adicionados registros tocantes da gradual piora de um dos principais membros do Act Up, o jovem Sean Dalmazo, interpretado intensamente por Nahuel Pérez Biscayart. Marcado pela energia com que conduzia sua vida e defendia suas ideias políticas, como se cada minuto fosse o último (algo perfeitamente compreensível dado o seu quadro de saúde), Sean acaba representando a urgência que os personagens do filme têm de uma solução para aquela realidade, algo que quem estava de fora não conseguia compreender porque não vivia na pele. Quando olhamos para o relato sobre Dalmazo, 120 Batimentos por Minuto faz com que sua relevância política e histórica, ganhe identidade e alma, tornando o filme ainda mais poderoso do que ele é quando não ainda não utilizava tal recurso.

Assista ao trailer:

 

Wanderley Teixeira456 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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