29º Cine PE: O Ano em que o frevo não foi pra rua

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Os filmes mais difíceis de escrever sobre são aqueles que não provocam nenhuma sensação mais apaixonada, seja para o positivo ou o negativo. O ano em que o frevo não foi pra rua se encaixa exatamente nesta categoria. Não há aqui nenhum elemento odioso ou sensacional.

Pelo contrário, o documentário, sobre o carnaval de Recife e Olinda (!!!), é morno. A estrutura do longa-metragem segue uma lógica padrão de docs de entrevistas. Diversos relatos de artistas pernambucanos importantes para os festejos são escutados.

Em alguns instantes pontuais, emulações dramatizadas de carnaval são feitas. No entanto, a maior parte da projeção é feita de entrevistas filmadas com câmera parada, em plano médio.

Essa estrutura, sem muita inventividade da direção, deixa a projeção —  de apenas 70 minutos!!!! — exaustiva. Além disso, algumas escolhas parecem ser aleatórias em termos estéticos, mas que pioram a impressão de desconexão do espectador com a narrativa.

O primeiro ponto que chama atenção é a seleção do p&b, que não se justifica em termos de linguagem à serviço da narrativa. O longa mostra o impacto do cancelamento do carnaval de 2021, devido à pandemia do Covid-19.

A ideia do preto e branco pode vir desse estado de melancolia que Pernambuco viveu neste período. Todavia, quando a obra passa a mostrar os trechos gravados em 2022 e 2023 em cores, fica um questionamento rondando a mente de quem assiste.

E o questionamento é: por que patavinas 2022 é colorido se não teve carnaval? Por que as temperaturas e quadros são iguais em 2022 e 2023? A sensação que a equipe passa é a de que houve um despreparo e/ou uma falta de planejamento para conduzir a trama caso o carnaval de 2022 também fosse cancelado.

Nesta lógica, talvez fosse mais interessante selecionar o formato de curta-metragem, já que o filme não rende os seus 70 minutos, nem nas falas e nem na visualidade. Para fomentar essa impressão, os discursos dos entrevistados são bastante repetitivos.

Assim, fica uma impressão de que as perspectivas das fontes diferentes não foram pensadas. Ouvir mais autoridades pernambucanas, moradores da cidade, comerciantes etc.

Isto nem ao menos ocorreu em termos de uso de tipos distintos de materiais. De repente, investir em trazer para a diegese o que a equipe fez de pesquisa documental sobre o carnaval, já que a produção foi gravada na pandemia.

Recortes de jornais, trechos de outros documentários ou de programa de televisão poderiam ser algumas das opções. Mas, essa estratégia somente funcionaria se a montagem fosse feita por outra pessoa.

Caso contrário, a obra talvez ficasse ainda mais cansativa. Com diversos fades (in e out), durante todo o longa, a dinâmica de velocidades e tons fica abalada. Por ter esses cortes abruptos e intensos, além da conexão com as entrevistas serem cortadas, a impressão de finalização de assunto cria um sentido constante de desfecho da trama.

Existem diversas opções de recursos de montagem que deixariam a produção mais fluida, mas que não foram aplicadas. Desta maneira, O ano em que o frevo não foi pra rua é ingênuo em acreditar que a potencialidade dos talentos pernambucanos dará conta de forma completa dentro de um longa-metragem.

Sem criar coesão entre suas passagens, apostando no mínimo — doc de “cabeças flutuantes” —, sem trazer para a tela composição de planos e de luz, cuidado com a banda sonora e roteiro conectado com todos os entrevistados, o filme é exaustivo de acompanhar.

Apesar de ser um registro de um momento histórico crucial do início do século XXI, é necessário se esforçar muito para se manter na cadeira durante um pouco mais de uma hora.

E para fechar com chave de ouro os incômodos com o longa, em pleno 2021 — que não se tinha nem vacina de Corona —, muitos indivíduos surgem sem usar máscara. Mesmo que seja em uma ou duas sequências, é angustiante observar este fato.

Por todos estes motivos que o documentário parece descuidado. Faltou um zelo da equipe e, talvez, até mesmo comprometimento com o potencial da ideia que tinham em mãos.

Direção: Mariana Soares; Bruno Mazzoco

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