“Quando o telefone tocou, às 10h26, era sexta-feira”. “Quando o telefone tocou, este país ainda existia”.
É com essa frase que Iva Radivojević (Aleph) constrói o argumento de seu novo longa-metragem, Quando o telefone tocou. Aqui, a cineasta consegue evocar temas sobre infância, transformações de uma pré-adolescente e de seu finado país (Iugoslávia) e todo o contexto que cerca Lana (Natalija Ilincic), a protagonista da obra.
A cada progressão de tensão — sutil, mas mesmo assim presente —, o frame do relógio é posto com essa frase sobre o telefone. Ela muda aqui e ali, porém está sempre se repetindo. Essa reiteração funciona no longa por alguns motivos.
Há a inércia e o tédio do cotidiano, que causam estranhamento em comparação com a gravidade do fim de uma país. Ainda mais quando se pensa que a divisão da Iugoslávia foi sangrenta. Ao mesmo tempo, é muito sensível o olhar da equipe, ao inserir a perspectiva de uma criança neste cenário.
As angústias dela são sobre o destino da sua família e das suas amizades, mas também Lana quer pensar em que brincadeira preencherá sua tarde ou com qual amigo encontrará para ouvir música. Esse equilíbrio entrega ritmo para a produção, equilibra a lógica de tensão e relaxamento, do lúdico com o cruel e seco do real.
Por isso, Radivojević consegue imprimir tensão na narrativa. Porque há uma mescla de ordinário e disruptivo. Assim, ela lembra ao espectador, constantemente, que há um perigo que ronda Lana e todos daquele país. A construção da decupagem e as repetições de alguns quadros durante a projeção ampliam essa sensação.
Os planos médios das malas, por exemplo, anunciam a partida da família de Lana, que é a mensagem de impossibilidade da permanência, diante dos fatos graves que o país estava passando. Os frames da garota atendendo o telefone, em diversos ângulos, passam também a impressão que não está tudo bem. O rosto de Lana angustiando, em várias óticas é que passam esta interpretação.
Além disso, os enquadramentos que focam nas crianças e pouco mostra os adultos eleva a sensação de vulnerabilidade. É como se aquele fosse um mundo abandonado, no qual a garotada guiasse o olhar desse mundo. Essa presença infantil majoritária fomenta esse descontrole do país que está morrendo.
A voz off e as temperaturas são mais dois elementos que contribuem com todo esse discurso de Radivojević. O azul melancólico e o verde pálido estão no ecrã o tempo inteiro, claro. No entanto, aquele bege com marrom (quase dos filmes soviéticos) transmitem solidão, suspensão e abandono.
É na mistura destas cores que as emoções vão se multiplicando. Lana cresce. O seu país está ruindo. Os pais de Lana não explicam nada para ela. Ninguém deixa nada nítido para Lana. A garota aproveita os últimos dias dentro daquele cenário que lhe foi familiar por tanto tempo. E a plateia sabe que a menina vai perder todo aquele universo!
Porque a narração não deixa que quem assiste ao filme esqueça qual é o contexto que aquela obra está inserida. Porque, depois que o telefonou tocou, Lana não tinha mais avô e, logo mais, não teria a sua pátria. E todos os elementos técnicos estão à serviço de imprimir esta sensação e este acontecimento europeu.
Neste sentido, Natalija trabalha a sua personagem para que ela tenha firmeza corporal, mas um olhar perdido. A criança parece desamparada, sem respostas e a movimentação do elenco amplia essa construção de sentido. A seleção da direção em retirar o público da narrativa tradicional e mostrar planos longos de Lana, de quando em quando, com ângulos e luzes diferentes, amplia a compreensão do público sobre a menina.
Talvez, o único equívoco de Radivojević esteja no seu roteiro, porque a sua direção é quase impecável. Na escrita da produção, as repetições funcionam e a maneira como as angústias de Lana são postas também. No entanto, as relações são frágeis. É compreensível que a morte do avô seja um impulsionador dentro do enredo.
Todavia, para além da repetição do relógio, essa perda não reverbera exatamente na história. Não há também conexão de Lana com quase ninguém, somente com um menino, que parece seu melhor amigo. Nada é dito entre eles e o silêncio guardado poderia até ser um argumento, mas o texto não verbal também não expressa e não traz um trabalho destas relações.
Ainda assim, de toda maneira, Quando o telefone tocou consegue evocar um momento histórico triste e angustiante de um país que deixou de existir. Com uma protagonista carismática e uma visualidade que provoca a plateia, esta é uma produção bem sensorial e com argumentos bem expostos.
Direção: Iva Radivojević
Elenco: Natalija Ilincic, Anton Augustinov, Slavica Bajceta



