Mesclando o universo onírico, com as partes duras do passado das mulheres de sua família, João Vieira Torres (Babado) presenteia o espectador com seu novo e coeso filme, Aurora.
O título é o nome de sua avó, parteira e curandeira baiana. Mas, vemos muito mais do que a trajetória dela — ainda que a mesma seja profunda e cheia de camadas. Há um encontro do passado, presente e futuro aqui.
Num misto de experiências individuais e coletivas, João aponta questões sólidas como a violência contra mulheres, xenofobia e o racismo, porém sempre misturando offs pesados com imagens leves.
A voz de João é melódica e convidativa. Ao mesmo tempo que há suavidade, há uma força interna, de quem se apropria de sua história e decide contar ela para o mundo. Além disso, apesar de offs serem, geralmente, cansativo e enfadonhos, aqui o seu uso é um acerto.
A assistência de direção, de Marcelo Caetano (Corpo elétrico), parece fundamental para que Torres consiga trabalhar as nuances de sua voz e ser uma narração que conduz o espectador, como quem diz “passei um café e vou te contar uma história, menina…!!”
Neste sentido, outro elementos fomentam essa sensação. O roteiro, também de João — ao lado de Caetano e Deborah Veigas (A árvore) —, ambienta a plateia geograficamente, seja na França, no sudeste ou no interior da Bahia.
João também cria a atmosfera onírica através da encenação. A planificação ajuda nessa conexão do espectador com os espaços mostrados na tela. A duração desses quadros também otimizam a imersão do público.
Há contemplação, há reflexão e uma receptividade intelectualizada (pelo texto e pela lógica de construção de imagem), elementos raros de serem combinados de forma eficaz no cinema, porém aqui entregues com destreza.
A fotografia de Wilssa Esser (Levante) e Camila Freitas (Chão) compõem cenários idílicos e deixam esse discurso ainda mais intenso e fluido. Há calor nas imagens de Aurora. Contudo, há também uma melancolia e uma angústia. Assim, essa é uma sessão sensorial, plural e poética.
Uma poesia coberta de sangue das antepassadas de João, sim. No entanto, há um cuidado, um zelo e uma amor ao audiovisual que são indispensáveis para que o documentário seja profundo e bem realizado.
Talvez, Aurora peque apenas por ser intelectualizado demais, ficando um tanto hermético. Neste sentido, a obra pode não se conectar com um público mais geral. No entanto, ainda assim, esse é um bom doc do cinema nacional.
Direção: João Vieira Torres



