14º Olhar de Cinema: Apenas Coisas boas

3.5

O novo filme de Daniel Nolasco (O cavalo de Pedro) segue a mesma linha de sempre das produções do roteirista e diretor. No entanto, aqui, há uma questão um tanto séria. Isto porque a obra parece dois longas-metragens em um, sendo que a primeira parte é excelente e a segunda não.

Como de costumeiro, os encaminhamentos da trama “Nolasqueira” são como em fanfiction com foco em smuts. Neste sentido, pensando na dinâmica “fanfiqueira”, há aqui uma situação periclitante e intensa, que une dois rapazes: Antônio (Lucas Drummond/Fernando Libonati) e Marcelo (Liev Carlos).

Nesta atmosfera, há muita exploração de masculinidades, numa espécie de tentativa de revelar toda a pluralidade do que é ser homem. Nolasco vai além do que é posto como másculo e masculino na normatividade, olhando para as possibilidades de composições dessas mentes e corpos, oprimidas por um ideal de “macho”.

Isso não se dá somente porque ele está falando sobre um casal gay, mas sim o como ele trata sobre esse universo. No começo da projeção, a história se passa em 1984, em um Brasil agro. Antônio precisa lidar com o preconceito de seu pai, que acaba levando a sua vida para uma tragédia irreversível.

E é aí que está a chave do sucesso desta primeira etapa. Há uma criação de imersão na realidade desse casal. Com uma decupagem que deixa que o espectador consuma a produção em planos longos e contemplativos — seja de sexo, romance ou paisagens —, o público mergulha nesse rio, que banha esse amor e anuncia a perda dele também.

Assim, a câmera investiga essa realidade de Marcelo e Antônio. Juntamente com a planificação, as temperaturas usadas na iluminação, cenários e figurinos revelam a paixão entre os dois, mas de uma maneira onírica, que põe a dupla em uma situação de um amor inocente.

O roteiro de Nolasco fomenta essa sensação ingenuidade, pelo menos nesta fase que o amor juvenil de Antônio e Marcelo é retratado. Há aqui uma elaboração de discurso sobre a masculinidade tóxica e a homofobia dentro do Centro-Oeste. A partir desta temática, há progressão dramática, há uma trama amarrada e toda uma estética visual que contribui para a construção de sentido sobre aquele mundo ficcional.

Quando o público se conecta com a história e sente que houve uma conclusão bem redonda na obra, a segunda parte do longa chega e a qualidade da produção começa a cair. O romance vira thriller e o roteiro parece querer enganar a plateia.

Existe nesta parte 2 uma dimensão de reinvenção de fatos e o que era trágico imediato, torna-se um trágico prolongado. Sem revelar exatamente o que está acontecendo, um clima de mistério se instaura, porém sem nunca se justificar. Assim, o discurso dos atos seguintes ao primeiro soa como em oposição ao que acabou de ser impresso na tela como argumento.

Porque Antônio e Marcelo se perdem na trama. O ato derradeiro deles desaparece dentro desta ideia mais sacal do amor e de como ele sempre irá sumir com o tempo. Neste momento da história, somente a figura de Helga (Renata Carvalho) salva a produção do caos que ela se torna — uma excelente atriz, que consegue salvar diversas sequências e deixá-las mais orgânicas.
As outras atuações são sofríveis e o texto soa artificial. De fanfic bem escrita — daquelas que viram livros —, quem assiste passa acompanhar uma fic desconexa. A exploração visual dos corpos masculinos, na obra de Nolasco, vem para essa elaboração de imaginário, vem como um desejo que explode na tela e conecta o receptor pela vibração sensual e sexual das imagens.

Está tudo conectado, geralmente. Contudo, à medida que a exibição avança, esses sentidos vão se esvaziando. Daniel Nolasco é bom diretor, ok. Então, é um esvaziamento bem encenado, com uma bela fotografia de Larry Machado (Vento Seco) e uma montagem afiada de Will Domingos (Fogaréu).

É o trabalho dos três que, com uma unicidade imagética, que cria essa atmosfera de suspensão. Todavia, quando se olha para o texto e para os acontecimentos do enredo, tudo parece frágil. Antônio é o oposto do que era e nem uma vírgula do que ele foi surge no ecrã.

É exatamente como se o público visse um outro filme, no qual algumas semelhanças estão ali, porém a base de tudo desaparece. Ficam apenas os nomes das personagens e a casa da fazenda. Mas, todo aquele ambiente bucólico, com tons azulados e magentas suaves e todo romance somem.

Essa ruptura de identidade poderia funcionar se a segunda obra, dentro da grande obra principal, fosse boa. Mas, sem coesão entre cenas, sem a ligação do estético com a narrativa — por não estar à serviço dela e parecer somente querer criar efeitos —, por ter atores mais fracos e falas caricatas, isso não ocorre.

De toda maneira, Apenas coisas boas tem uma visualidade potente, uma criatividade e um tesão transbordante, que faz o cinema inteiro ficar em silêncio. Só de Nolasco entregar uma sessão sem pessoas conversando e mexendo no celular, esse longa-metragem já vale e muito!!!

Direção: Daniel Nolasco

Elenco: Lucas Drummond, Liev Carlos, Guilherme Théo

14º Olhar de Cinema: Apenas Coisas boas
3.5