Tiro, porrada e bomba. Atualmente, a associação da franquia Rambo feita pelo espectador parece ser essa. Grandes metralhadoras, munição infinita, armadilhas, explosões e helicópteros. Por um lado, essa não é uma interpretação errada, uma vez que a partir de Rambo II – A Vingança do Herói, tal camada de violência fica mais explícita. Entretanto, torna-se urgente relembrar sobre o que verdadeiramente trata o primeiro drama da saga, Rambo: Programado Para Matar.

Primeiramente, repare bem no gênero que eu coloquei o longa de 1982. Drama. Baseado no livro de David Morrell (que recentemente criticou Rambo: Até o Fim, lançado em 2019), escrito dez anos antes, a narrativa acompanha John Rambo, veterano da Guerra do Vietnã, como um vagante pelas terras norte-americanas. Desolado, solitário e perdido, o herói não sabe o que fazer, nem para onde ir. Como indica a boa tradução brasileira (o que é raro, então é sempre bom ressaltar quando acertam), John foi programado apenas para fazer uma única coisa: matar.

Por este motivo, quando a guerra acaba, Rambo parece desnorteado. Como viver em um ambiente de paz? A primeira coisa que busca é, não por coincidência, um colega dos tempos de conflito. Ele não quer esquecer suas aventuras, ele quer relembrar. Mais do que isso, ele precisa lembrar. Assim, ao descobrir que o amigo havia falecido, seu sentimento de isolamento e não pertencimento aumenta.

Posteriormente, ao sofrer uma abordagem truculenta do xerife Teasle, reforça-se este sentimento. É quase como se Rambo fosse um estrangeiro em sua própria terra. Justamente a nação que jurou defender e viu diversos amigos perecerem. O antagonista do filme nunca deixa seus motivos claros, mas torna-se óbvio: A Guerra do Vietnã foi considerada um fracasso e os combatentes ficaram com estigma de problemáticos, agressivos e transtornados. Ninguém os quer por perto.

Em uma das cenas mais emblemáticas de Programado Para Matar, logo no primeiro ato, Teasle dá uma carona coercitiva para Rambo até o limite de cidade, delimitado por uma ponte. Segundo o xerife, caso voltasse, arranjaria problemas para si mesmo. Com isso, o herói até começa a caminhar na direção correta, mas para e dá meia volta. Mais do que a travessia literal da ponte, este momento significa muito. Afinal, caso seguisse em frente, qual seria seu destino? O que o mundo lá fora tem para oferecer? Ao perceber que a resposta é “nada”, Rambo cruza um caminho sem volta para o único ambiente que conhece, a eterna guerra.

Neste sentido, o figurino indica muito sobre esta natureza. Quando o filme começa, o protagonista está usando um casaco militar, com a bandeira dos EUA, em um tom de verde desbotado e um botão aberto. Por baixo, ele veste uma camisa vermelha, que representa sua violência parcialmente escondida, como se estivesse tentando escondê-lá. Ainda assim, sua camada exterior não se confunde com a de um cidadão normal. Rambo é, em sua essência, a personificação da guerra norte-americana.

Naturalmente, com o passar da história, o personagem descobre uma dura realidade. O inimigo está em todo lugar, seja na floresta do Vietnã, quanto no ambiente urbano norte-americano. Aliás, esse mostra-se um vilão muito pior e mais cruel. Mais do que enfrentar soldados e policias, ele está lutando contra o Estado repressor.

Inclusive, o fato de Rambo não matar diretamente nenhum desses representantes do Estado — uma mudança em relação ao livro — diz muito. Assim como ele foi um fruto desta política belicística, aquelas pessoas são apenas peões de um sistema muito maior. Fazer uma pilha de corpos seria inútil, pois assim como uma hidra, a cada cabeça cortada nasceriam duas. No único falecimento do filme, há ainda o cuidado de não ser ação provocada diretamente por Rambo, com o soldado caindo de um helicóptero sozinho.

Caso seguisse fielmente o livro de Morrell, Programado Para Matar teria mais uma morte: a do próprio protagonista, que chegou a ser filmada como um suicídio, mas descartada. E talvez esse fosse o final mais apropriado para o filme, uma vez que o personagem vivido por Sylvester Stallone percebe que não há mais esperança. Abandonado, perseguido e rejeitado, Rambo seria perseguido pelos traumas da guerra aonde quer que fosse, como incansáveis sombras. Todavia, o espírito otimista de Stallone, somado a busca insaciável de Hollywood pelo lucro, permitiu que posteriores sequências fossem feitas e desvirtuassem completamente da essência original da franquia Rambo, virando somente tiro, porrada e bomba.

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