Desperados

Dica do dia: Desperados (Netflix)

Entre irregularidades, inverossimilhanças e diálogos expositivos, Desperados consegue, surpreendentemente, trazer um resultado divertido. A começar pelo trio protagonista formado por Wesley (Nasim Pedrad, Aladdin), Brooke (Anna Camp, A Escolha Perfeita 3) e Kaylie (Sarah Burns, Big Little Lies). Individualmente falando, as atuações não são fortes e recorrem aos caminhos mais fáceis, como na acentuação das palavras repetidamente e uma movimentação de cena “suja”. No entanto, a dinâmica que elas estabelecem entre si é positiva, pois consegue passar certa intimidade e cumplicidade. Isto é algo que vale ressaltar em uma produção onde a direção de atores parece frágil, pois o elenco não tem unidade nas atuações. Seja pelas escolhas de tom, que destoam das próprias cenas em algumas partes ou pelo trato do texto, falta processo e estudo.

A sensação é quase de que está se acompanhando improvisações e que a compreensão do roteiro ainda não foi alcançada. Ainda assim, há qualidade em uma outra relação na narrativa. A química entre Wesley e Sean (Lamorne Morris, Yesterday) é instantânea na tela. É impressionante como, mesmo após a sequência da primeira interação da dupla, a roteirista Ellen Rapoport (The Starlet) tenta “enganar” o espectador e dar diversas voltas, apenas para revelar no final o que já estava claro em menos de dez minutos de projeção. Além disso, a personagem de Morris acaba sendo jogada em múltiplos momentos e situações, sem uma razão aparente a não ser por convir para Rapoport. 

Ainda pensando no trabalho textual, é curioso notar as reiterações que o longa faz. Depois de já estar bem claro o desespero de Wesley, por exemplo, seja no título da obra e nas conversas da personagem com suas melhores amigas e no telefone, a equipe achou necessário reforçar isto visualmente. Vários planos detalhes da residência da moça são mostrados, objetos de despedidas de solteira, de convite de chás de bebês e etc, como se ela fosse uma pessoa enlouquecida por não estar em um casamento e, de certo modo, até com rancor de quem está casado. É um tanto triste este elemento tendencioso, já que roteiro e direção são assinados por duas mulheres.

Desperados

A cineasta Lauren Palmigiano (Mr Mom) fomenta estereótipos, principalmente em questões de enquadramentos que passam um tom tão forte de distanciamento para com Wesley, que acaba sendo colocada em um lugar de ridicularização. Até em seu desfecho, quando faz uma mise-em-scéne que joga com as relações de poder entre mulheres diante de um homem, a direção carrega um olhar que reproduz um discurso de que a força feminina é mais intensa quando ela está ao lado de um homem que ama (eca?). Existe também uma questão de falta de ritmo que permeia Desperados. É como se ele passasse tanto tempo procurando colocar ações frenéticas que quando chega o respiro, as situações perdem a graça. Se uma história é contada sem equilibrar tensões e angústias com relaxamento, uma hora vai ficar exaustivo de acompanhá-la e/ou quando o freio for pisado a queda será sentida.

Por fim, os velhos e conhecidos clichês sobre o México – local que o grupo vai para tentar salvar o namoro de Wesley – e seus habitantes apareceram o tempo inteiro para lembrar como estadunidenses não conhecem nada que vá além de seus umbigos. Apesar de todos os problemas apontados, existe uma criação de empatia que se estabelece com as personagens, despertando uma vontade de descobrir o desfecho. Quando existe esse apego durante a exibição, é mais fácil também de rir das piadas. O timing cômico é uma das maiores qualidades do filme. A habilidade em naturalizar passagens perturbadoras é sempre algo bacana, porque se as sequências não forem orgânicas, perde-se o propósito inicial e essencial da comédia.

Direção: Lauren Palmigiano

Elenco: Nasim Pedrad, Robbie Amell, Anna Camp, Sarah Burns, Heather Graham, Lamorne Morris

Assista ao trailer!

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