O tempo das coisas. É importante, mesmo que nem sempre fundamental, que obras ficcionais usem um momento maior para contextualizar e ambientar o espectador. Esse é o caso de Totto Chan: A Menina na Janela. Adaptação da autobiografia da artista Tetsuko Kuroyanagi, o longa-metragem deixa que o público mergulhe com calma na narrativa e esse é seu maior ganho.
O livro é um fenômeno no Japão há décadas, mas, ainda assim, a equipe não toma como certo aquele enredo e apresenta cada elemento da trama com cuidado. Primeiramente, a plateia conhece Totto (Liliana Ôno) e sua família, depois a sua antiga e a sua nova escola. Por fim, as amizades de Totto e as tensões da Segunda Guerra Mundial são postas.
É por isso que, quando todo o sofrimento advindo da guerra chega, quem assiste já criou uma conexão forte com as personagens, principalmente com a figura central. Mas, a tranquilidade para deixar que as situações fluam na tela é apenas uma das características positivas que ajudam neste sentido.
O uso das cores, texturas, ângulos e efeitos de câmera também podem ser convocados para justificar esse bom resultado geral da obra. Todas as emoções mais intensas de Totto e de quem cerca a garota podem ser quase sentidas. Há um toque sensorial na obra. Quando o tom das flores e do céu se sobressaem, por exemplo, o que Totto vivencia se torna mais nítido e palpável.
Outro caso interessante de observar é quando o diretor Shinnosuke Yakuwa (Doraemon) usa dolly zoom para elevar o tom de empolgação de Totto. Aquelas experiências, que podem parecer comuns no cotidiano de um adulto, se expandem e se transformam em grandes eventos, porque Totto vê o acontecimento assim e, por conta da direção de Yakuwa, a plateia também.
Todos estes recursos dialogam com os consumidores, que vão compreendendo a dinâmica do no colégio de Totto Chan, do contexto político japonês do período e das especificidades das crianças da escola Tomoe. O tempo de tela dado a cada criança da história também revela como a equipe entende as temporalidades que o Tomoe emprega na vida dos seus estudantes e o tom desta educação disruptiva oferecida por ali também demonstra a consciência da produção sobre aquele universo.
Apesar de existir dentro do enredo frases que marcam quais são os diferenciais da Tomoe, com ênfase dos atores nos textos que explicam sobre os funcionamentos da escola, tudo é feito com organicidade. Existem pausas e destaques para elementos, como o fato dos alunos descreveram o que estão comendo antes de fazerem as refeições, porém, a ausência de artificialidade vem da relação dos enquadramentos com as vozes do elenco.
Quando há um registro forte da intenção vocal, os planos podem ser mais abertos ou com movimentos de câmera e vice-versa. Nos poucos instantes que existem quadros mais fechados, parados e extensos são quando o clima de iminência do perigo bélico já se instaurou e essa estratégia faz sentido.
Desta forma, as transformações vivenciadas por Totto também são inseridas com delicadeza. O medo e a fome, provocados pela guerra estão presentes, mas com uma mescla de denúncia e tom onírico. Esse equilíbrio entre convocar a ingenuidade da infância e as suas alegrias, mas sem deixar de inserir as durezas da vida, faz com que o roteiro seja mais tocante e crível.
É por isso que Totto Chan: A Menina na Janela se torna um importante título da animação japonesa e merece ser consumido. Apesar de em alguns momentos o filme possuir sequências cansativas, esse fator não domina e nem atrapalha o longa como um todo. Há muito carisma por Totto e seus amigos e familiares e existe todo um cuidado técnico da produção, que entrega uma bela sessão para todos.
Direção: Shinnosuke Yakuwa
Elenco: Liliana Ôno, Kôji Yakusho, Shun Oguri
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