Crítica Praia do Silêncio 

Crítica Praia do Silêncio 
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Entre planos longos e ruídos de mar e do vento, Praia do Silêncio é uma amostragem de como o audiovisual pode estar realmente à serviço de uma narrativa. A estratégia dos diretores, Francisco Garcia (Borrasca)  e Gabriel Campos parece ser a de ativar emoções profundas, através da inserção da extensa contemplação. Juntamente a isso estão os ruídos da praia e da floresta, desse casulo que o protagonista criou para ele mesmo.

Neste sentido, investigar este pai alcoólatra, que abandonou a mulher e a filha, torna-se uma missão para quem assiste. O espectador pode criar ojeriza à essa figura, posta como decadente, solitária e egoísta. Nas cartas de sua ex-mulher é possível saber, inclusive, que a criança ficou surda e sem nenhum suporte do pai. Essas características que provocam tantas emoções fortes na plateia está presente tanto no roteiro de Garcia com Gabriel Campos, quanto na atuação de André Gatti (Avante Popolo).

Aqui há todo esse contexto vivenciado por esta família quebrada, mas também existe algo na vulnerabilidade do pai que apazigua o julgamento para com ele. É importante este tempo de tela que cada personagem central ganha, seja o pai ou a filha, porque este contraponto é elaborado. A construção de sentido é a de que o público acompanha pessoas comuns, com erros, dores e perdas comuns. Quando ele é posto sozinho na tela, assombrado por suas falhas, algum tipo de empatia por esse senhor parece surgir. 

Em termos de luz e uso de temperaturas, outra dicotomia é criada. O azul e o bege da praia evocam melancolia e desespero. Já as sombras, vêm com algo amarelado/alaranjado, que imprime um certo conforto. Essa escolha revela a inteligência da equipe que consegue explicar visualmente como esse homem se esconde e se conforta na escuridão. juntamente aos longos quadros contemplativos e os sons ambiente — emulados também, mas que passam essa ideia —, existem também as vozes em off. Escutar a narração da mãe é tomar consciência do que aconteceu.

Ela chega como um eco do passado, assim como a presença ausente da filha. O tom poético dos textos balanceiam a força cortante do que realmente ocorreu com a mãe e a criança, após a partida do pai. Este é um elemento importante de abordar, porque esses versos quase poéticos poderiam soar como um fator de distanciamento, uma quebra com a trama. No entanto, pelo contrário, essa estratégia fortalece a imersão com a obra.

Dentro deste universo, o enredo ainda conta com pontuações políticas, presentes nas cartas da mãe. Essa é uma questão que os roteiristas exageraram. O filme é muito íntimo e os fatos históricos poderiam servir como respiros de todo a dramaticidade da história do trio, mas soam artificiais. Faltou organicidade para trazer esses momentos para o filme.

De toda maneira, A Praia do Silêncio é intenso e corajoso, ao convidar sua plateia para contemplar longamente as emoções de um homem que se sente derrotado por si mesmo. Entre cores, sons e momentos completamente silenciosos, a produção é também uma chance de realizar uma autorreflexão e uma avaliação perturbadora e importante sobre as figuras paternas na sociedade.

 

Direção: Francisco Garcia e Gabriel Campos

Elenco: André Gatti, Ana Abbott