Crítica O Último episódio 

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 O Último episódio é o novo longa-metragem da Filmes de Plástico. Esta é uma produção inteligente, pois sabe como pode enganchar uma grande quantidade de público. Enquanto os mais velhos se encantam com a nostalgia, os mais jovens se ligam na narrativa de amor juvenil e o enredo do subgênero coming of age.

No entanto, dentro de toda esta estrutura de filme de amadurecimento, dos início dos anos 1990, falta ao longa organicidade. A intenção, mesmo que falha, é boa. Na tentativa de aproximar ainda mais o público, o diretor Maurilio Martins trabalha a encenação. 

Neste sentido, o elenco ganha planos mais longos e constrói a cena em suas movimentações e retenções. Contudo, nessa duração mais extensa do quadro, é possível notar a artificialidade da fala e dos gestos dos intérpretes. Esse fator pode retirar a plateia da imersão com o enredo.

Assim, o texto é dito de maneira enunciativa e com pausas que deixam nítido que os atores estão pensando no que vão dizer, mesmo que isso ocorra em uma fração de segundos. O corpo sem ativação de tônus, também eleva essa impressão de que falta verdade nas cenas.

Ainda assim, o carisma dos atores e da trama ajuda a equilibrar um pouco esse tom exagerado da prosódia e dos movimentos do elenco. Ainda assim, a produção também peca no roteiro.

Além dos diálogos também contribuírem para essa impressão de que os espectadores estão assistindo uma peça de teatro infanto-juvenil da 6ªD, a trama em si é óbvia e faz voltas desnecessárias.

A tensão de Erik produzir a fita para a novata, que é sua crush, renderia um excelente curta-metragem. Mas, para ele ser um longa, peripécias demais foram inseridas (o roubo da câmera, o festival de cultura, a mudança de casa) para fomentar os conflitos do protagonista.

Todavia, não se enganem, existem pontos da narrativa que já renderiam um longa-metragem. A questão de Erik com a morte de seu pai, seu relacionamento com Cristão e Cassinho e os próprios subplots de seus amigos já renderiam bastante desenvolvimento do enredo.

O que acontece aqui, na realidade, é uma ausência de coesão e espaço para aprofundar tantas questões convocadas. Dentro deste universo de boas intenções mal executadas, uma equipe diverge dessa lógica.

A arte do filme é cuidadosa ao retratar os anos 1990. Quem viveu o período pode se sentir em uma grande máquina do tempo. Aqui, os profissionais são detalhistas e deixam nítido que fizeram uma boa pesquisa e executaram tudo com atenção, como é o caso da cena do aniversário de Cristão.

Deste modo, é preciso salientar a potência da Filmes de Plástico e do cinema brasileiro de produzir obras tão plurais, com múltiplos gêneros e temáticas, mas que convergem na sensação de brasilidade – ainda que esta também seja tão rica e diversa.

Desta forma, O Último Episódio é sensível em retratar a ingenuidade e a intensidade da adolescência. Ainda que não consiga refinar a sua proposta em termos de roteiro e atuação, o longa mostra um cuidado com as locações, luzes, objetos de cena e figurinos, nesta composição dos anos 1990.

Mas, mais que isso, ele pega quem assiste pelo coração, pela delicadez em olhar para pré-adolescentes com tanta proximidade e leveza, mas olhando para as problemáticas emocionais deste período tão desafiador.

 

Diretor: Maurílio Martins

Elenco: Matheus Sampaio, Daniel Victor, Tatiana Costa

Assista ao trailer!

 

Crítica O Último episódio 
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