Crítica O Ônibus Perdido

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Paul Greengrass é um bom diretor, de verdade. A trilogia Bourne, Voo United 93, Capitão Phillips, Relatos do mundo etc. podem não ser os melhores longas-metragens do mundo, porém são bem dirigidos. O que acontece com O Ônibus Perdido é que, além da produção conter falhas em diversos setores, não foi o melhor momento da carreira de Greengrass na direção.

Em um drama de ação, é árduo para o espectador acompanhar o que acontece ao redor das personagens. A decupagem não fomenta a atmosfera de tensão e não deixa nítido para quem assiste o que está de fato se passando. Há uma questão grave, dentro de toda a lógica qualitativa do filme: a ausência da possibilidade de fruição verdadeira.

As personagens centrais, Kevin McKay (Matthew McConaughey) e Mary Ludwig (America Ferrera), ficam preocupados com o fogo os cercam, mas o público não compreende o perigo, porque não é posto em cena, através do trabalho de Paul, onde estão os pontos de medo e tensão. No entanto, os problemas parecem já vir do roteiro.

Adaptação do livro Paradise: One Town’s Struggle to Survive an American Wildfire, da escritora Lizzie Johnson, essa é uma história inspirada no que foi, de acordo com a Time, o maior incêndio florestal da Califórnia. Uma das narrativas presentes no material de Johnson é o resgate que o motorista de ônibus Kevin McKay fez de 22 crianças, ao lado da professora Mary Ludwig.

É interessante fazer uma ode aos heróis do cotidiano, que não possuem super poderes e fazem coisas incríveis. Todavia, o longa novo do Greengrass não celebra bem a dupla central. Apesar da rotina intensa de Kevin ser mostrada, ela é reforçada demais e um tempo extenso para a criação de camadas de sua personalidade é perdida.

Mary existe na trama quase sem nuance. America tem dificuldade de inserir gradações em um texto que dá chances ínfimas da intérprete ser criativa. As frases da sua personagem são repetitivas e sem espaço para uma performance mais eficiente dentro do ônibus. Kevin até tem vislumbres de complexidade, porém a investigação de sua jornada fica apenas flertando com o profundo.

O seu relacionamento com o filho, com a mãe e com a ex-mulher são superficiais. Os seus desejos e sonhos não são revelados. É por isso que tanto McConaughey quanto Ferrera apresentam atuações limitadas, porque eles não têm nem de onde tirar material suficiente para construir algo bom. E para além dos diálogos rasos, a mise-en-scène pouco colabora para essa expansão que poderia acontecer na construção de papel dos dois, caso Greengrass tivesse executado melhor sua função.

Isso poderia vir de outros posicionamentos de câmera, de escolha de enquadramento ou, até mesmo, de movimentação de câmera. Mas, para além do diretor, a montagem também ficou aquém. Talvez, a equipe de edição(Peter Dudgeon, William Goldenberg, Paul Rubell) estivesse com um produto bruto muito ruim nas mãos, porém fica difícil saber quem foi o grande culpado (cineasta ou editores).

O que fica nitidamente perceptível é que os cortes também dificultam o acompanhamento das sequências, principalmente as que são filmadas dentro do coletivo. Desta maneira, por mais que o ato de Mary e Kevin seja belo e honroso, O Ônibus Perdido é uma obra que peca por não saber transformar um enredo forte e relevante em imagem. O resultado final é uma sessão cansativa e confusa.

Direção: Paul Greengrass

Elenco: Matthew McConaughey, America Ferrera, Yul Vazquez

Assista o trailer!

 

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