Filmes que abordam a religião judaica estão presentes no cinema desde seus primórdios. Afinal, os judeus tiveram participação crucial na transformação da simples Hollywood em uma casa do cinema norte-americano. Assim como toda temática, o judaísmo pode ser abordado dentro de diversos gêneros. Por exemplo: um musical, como O Cantor de Jazz (1927), ou até um suspense psicológico, como Pi (1998). E assim como todo outro assunto, ele pode ser satirizado. Neste sentido, O Despertar de Motti é o longa-metragem escolhido para representar a Suíça no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Mordechai (Joel Basman, Terra de Minas) — ou para os íntimos, Motti — é um jovem judeu de família ortodoxa que vive com os pais. Longe de ser uma figura independente, sua mãe Judith (Inge Maux, Murer) tem total controle de sua vida. A religiosa fanática se intromete tanto em atividades banais como na escolha de seu óculos, roupas e barba, quanto marcar shidduchs — encontro amoroso entre dois judeus — para que o filho encontre uma namorada. No entanto, para seu desgosto, Motti conhece Laura (Noémie Schmidt, Versailles), uma shiksa (não-judia), na faculdade.

Assim como A LavanderiaO Despertar de Motti quebra a quarta parede e coloca seu protagonista para nos explicar todas as tradições judaicas. Por um lado, isso vai de encontro com um lado da história marcado por um tom caricatural, como a exagerada Judith. No entanto, o filme cai para o lado dramático em diversos momentos e esse didatismo impede uma maior imersão do público neste sentido.

Ainda que o filme faça uma crítica ao fanatismo religioso personificado na figura da mãe de Motti, há um certo perigo na maneira como ele ridiculariza um relacionamento completamente tóxico e abusivo. Além disso, há pouco aprofundamento na personagem, que nunca tem seu fundamentalismo explicado, tornando-se unidimensional. Até por isso, quando há um confronto entre mãe e filho no ápice da narrativa, a força que este momento esperava ter nunca se concretiza.

O Despertar de Motti

Naturalmente, O Despertador de Motti também cai na categoria de um coming-of-age (amadurecimento) e há incongruências neste aspecto. Primeiramente, há uma rapidez no avançar da trama que impede qualquer desenvolvimento além do personagem principal. De tal modo, é impossível acreditar que aquela rápida viagem para Israel tenha sido o suficiente para despertar uma profunda mudança no comportamento de Motti. Uma interessante saída seria, através de uma montagem dinâmica, mostrar mais momentos dele no país.

Apesar de tudo isso, Joel Basman faz um trabalho bem convincente no papel principal. É certo que filmes sobre adultos infantis e virgens já estão um pouco datados e fora do novo contexto social, mas o ator consegue passar de maneira genuína uma persona extremamente frágil, inocente e repleta de inseguranças, por meio de diversos cacoetes. De mesmo modo, as atrizes também cumprem o que é exigido delas: Inge Maux é uma ótima caricatura vilanesca; e Schmidt e Meytal Gal — faz Jael, que Motti conhece em Israel — são as meninas que ajudam a abrir a mente do protagonista. Porém, nenhuma delas é desenvolvida propriamente e sequer possuem um final. Resumidamente, o elenco feminino só está ali para desenvolver o masculino.

O Despertar de Motti é um longa previsível para todos já acostumados com histórias de evolução. Tampouco, quando usa a comédia para criticar os perigos do fanatismo, não consegue arranhar mais do que sua superfície. Com uma direção apenas eficiente de Michael Steiner (Sennentuntschi) — que lembramos que existe apenas nas nebulosas cenas de festa — o filme pelo menos não tenta vender uma complexidade que não existe, se entregando aos diálogos expositivos e as conveniências narrativas — toda garota bonita que Motti encontra quer beijá-lo? No fim, é uma comédia palatável ao público geral, mas é negativamente surpreendente que esse seja o escolhido para representar a Suíça no Oscar. Não quero nem imaginar as outras opções do país.

Direção: Michael Steiner

Elenco: Joel Basman Noémie Schmidt, Inge Maux, Meytal Gal

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