A mais nova estreia brasileira nos cinemas, Happy Hour – Verdades e Consequências, vem como um projeto de parceria entre dois países. O Brasil e a Argentina se unem em prol de uma narrativa a qual usa a comédia e os dramas do cotidiano de um casal para discutir e criticar situações contraditórias da sociedade. Esse tom cômico vem personificado pelos trejeitos da personagem de Pablo Echarri – que, ao lado de Luciano Cáceres, compõem o núcleo paspalhão da história. Ao lado de Echarri, para trazer seriedade à trama, Letícia Sabatella desenvolve algumas das poucas cenas com qualidade plena. O público pode conferir essa tortuosa comédia a partir da próxima quinta-feira (28).

Horácio (Pablo Echarri), um professor universitário comum, tem uma reviravolta em sua vida quando ele acidentalmente ajuda a prender um notório criminoso da cidade. Após se tornar uma celebridade, Horácio decide contar a sua esposa, Vera (Letícia Sabatella), sobre o seu desejo de se relacionar com outras mulheres fora do casamento. A fama, os holofotes e essa nova revelação chegam para Vera no pior momento de sua carreira: quando ela está prestes a se candidatar à prefeitura do Rio de Janeiro. O turbilhão de acontecimentos vai elevar o atrito do casamento pondo a relação dos dois em cheque.

A primeira impressão ao iniciar o longa é: o que está acontecendo? O público não consegue lidar com a quantidade excessiva de informações que são jogadas de uma só vez nos primeiros minutos. A trama já começa dividida em três núcleos diferentes. Ou seja, existe uma dificuldade clara no filme: alcançar a inteligência criativa desejada por meio de um excesso de artifícios. A vontade de debater diversas problemáticas sociais e a tentativa de fazer isso através de metáforas fizeram desse longa-metragem um trabalho atrapalhado e incompleto. A sensação que o espectador tem é semelhante ao preparo de uma comida com os restos que tem na geladeira, feito por alguém com pouca experiência na cozinha. O resultado é intragável.

Happy Hour - Verdades e Consequências

Apesar do tom cômico se perder em alguns momentos, ele é bem-vindo a narrativa. As críticas sociais – sejam a política, ao machismo ou aos relacionamentos – também cabem na situação proposta pelo roteiro. A costura escolhida para unir isso e outras questões é que foi equivocada. O que existe em Happy Hour é uma cama de gato que afeta diretamente a história. Eduardo Albergaria, Ana Cohan, Carlos Arthur Thiré e Fernando Velasco criam um roteiro tão atrapalhado quanto a sua personagem principal. A existência de Horácio parece um efeito colateral da confusão criada pelo próprio roteiro.

Para não se distanciar da aura que rege a produção, o elenco é um outro núcleo de confusões. Quando se pensa nas cenas de Happy Hour, existem três cenários. O primeiro é comandado pela versão física e pitoresca da personagem de Pablo Echarri, onde todas as suas ações são atrapalhadas e exageradas. O segundo cenário é composto pelo teor de seriedade que Letícia Sabatella tenta agregar ao longa. Apesar dos seus esforços, a sua atuação sutil e de qualidade não é suficiente para colocar esse trem descarrilhado de volta aos trilhos. Por fim, o terceiro e mais problemático cenário é orquestrado por uma segunda versão do Horácio, uma versão que funciona como uma espécie de narrador-personagem. As suas aparições trazem uma atmosfera assustadoramente etérea que não combina com nada da película.

Há uma atmosfera de confusão orquestrada por Eduardo Albergaria. Não existe consonância entre as partes da narrativa. O que se vê é um frankenstein de ideias, costurado com metáforas extremamente deslocadas da trama. O projeto dirigido por Albergaria não passa de um caldeirão de ideias mal executadas. A proposta base da narrativa é interessante, mas se perde em meio as ideias. As ideias são essenciais para uma narrativa inteligente e engajada, mas não são bem elaboradas e distribuídas ao longo da história. Tudo isso enrolado por uma personagem principal esquizofrênica que vagueia entre duas personalidades opostas – e ainda, em uma delas, se comunica através de metáforas sobre, por exemplo, pertencimento e destino. Happy Hour – Verdades e Consequências acaba, então, como uma decepção aos entusiastas de um cinema moderna, onde a sétima arte é utilizada para brincar com questões reais e subjetivas.

Direção: Eduardo Albergaria
Elenco: Letícia Sabatella, Pablo Echarri, Luciano Cáceres, Juliana Carneiro da Cunha

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