Dormir de Olhos Abertos é um filme que engana por um bom tempo de projeção. Com três personagens centrais — que soam como perdidas e até sem viço—, é preciso que a sessão avance um pouco mais para que fique perceptível que a ausência de rumo da narrativa é proposital. Aqui, inclusive, este traço é extremamente complexo de explicar.
No entanto, a invisibilidade dos estrangeiros no Brasil e as diferenças culturais do encontro destes universos são fomentados através desta lógica de história “perdida”. Xiao Xin, Fu Ang e Kai não ocupam uma posição exata de protagonismo. Os três contam com sequências relevantes para a trama, mas não como agentes transformadores ou que sofrem as maiores transformações.
Neste sentido, o enredo é cíclico e revela a mesmice do cotidiano do trio. Os extensos diálogos deles com os amigos sobre o que incomoda eles em terras brasileiras é uma das repetições da narrativa. O mesmo pode ser dito sobre as temperaturas, que fomentam esse diálogo com a incerteza que estes jovens retratados na obra vivem.
O ciano e amarelos claros, que imprimem uma palidez ao ecrã, combinam com a apatia e a letargia que este novo país parece causar em Xiao Xin, Fu Ang e Kai. Assim, o roteiro anda em círculos, junto com o trio, e as visualidades também. Juntamente a isso, há a curiosidade pelo novo, substituída pelo estranhamento com o completamente diferente e o medo da perda de identidade.
São três fases colocadas nos discursos das personagens. Mas, essas sensações não são trazidas em blocos, estão imbricadas e aparecem em frases pontuais, como na sequência que Xiao Xin conversa sobre o motivo de escrever os seus cartões postais. Neste sentido, é curioso observar como existe no longa-metragem uma mescla entre contemplação e verborragia.
As figuras em cena falam compulsivamente, porém são nos silêncios interrompidos que as sentenças mais fortes são inseridas. Ao mesmo tempo, são nestes instantes que o público pode se deparar com os contra-plongèes dos edifícios gigantes do Recife. Assim, cria-se a compreensão progressiva na projeção sobre a imensidão das diferenças e como os estrangeiros retratados na produção se sentem pequenos em relação ao que os cercam.
Inserir na encenação movimentos e diálogos mais lentos nos estrangeiros versus uma aceleração caótica dos locais, faz com que o entendimento sobre a perspectiva de quem é de fora fique mais compreensível. É difícil aceitar, em algumas partes, alguns traços incoerentes da cultura brasileira, que podem realmente ser vistas como invasivas para quem é de fora.
Dentro de todo este contexto, a partir do segundo ato, com o reforço dessa estrutura rítmica, que tem essa dilatação e essa demora de inserir acontecimentos dramatúrgicos, é que a estratégia pode ser vista como proposital. A escolha é arriscada, porém funciona pelo uso da repetição da lógica. Há uma reflexão sobre uma distinção cultural, uma conversa entre os amigos, um evento inusitado (melancia que cai do céu, marinheiros no apartamento etc.) e assim a trama segue.
No entanto, é importante ressaltar que a transformação das personagens acontecem. Após algumas reiterações estruturais do roteiro, Xiao Xin, Fu Ang e Kai agem diferentemente. Uma sequência simbólica é quando Xiao e Fu jogam lichia pela janela. Eles já não são mais os mesmos.
Em termos técnicos, a escolha da equipe parece ser se valer do tradicional coeso, para ser disruptivo na forma de manipular o roteiro. As temperaturas e quadros revelam um distanciamento e uma certeza frieza, que deixa um tanto nítido que o filme é de uma alemã (Nele Wohlatz).
Há algo na filmografia alemã contemporânea, de forma bem geral, que é uma escolha por tons pastéis, como se uma água tivesse sido jogada nas tintas. Essa palidez alemã equilibra a miscelânea de identidades globais, seja pela perspectiva cultural taiwanesa e chinesa das personagens, com múltiplos idiomas conhecidos e falados pelas figuras em cena e o espaço geográfico ser o Brasil.
Assim, Dormir de olhos abertos é uma produção que exige uma calma para que o seu ponto central seja absorvido. Talvez, uma calma não muito brasileira, mas que vai se preenchendo de sentido de tal maneira que, ao final da exibição, o público se nutre de uma identificação e uma proximidade com a história. Escutar os diálogos preencherem a obra, com intervalos para o extra cotidiano que só o Brasil pode ofertar, cria essa atmosfera absurdista.
São nestas características estilísticas que a mensagem é transmitida com plenitude. O invisível é transcrito em imagens e sons, que refletem a solidão e a angústia de forasteiros. Com consciência da tecnicidade, Wohlatz deixa explícito em seu longa alguns dos sentimentos mais profundos de uma população e somente por conseguir transmitir isso, assistir Dormir de olhos abertos já vale a pena.
Direção: Nele Wohlatz
Elenco: Liao Kai RoShin-Hong WangNahuel Pérez Biscayart
Assista ao trailer!



