Celine Song (Vidas Passadas) se vale das marcas narrativas e estéticas de comédias românticas dos últimos 30 anos para construir o roteiro e a direção de Amores Materialistas. No entanto, ao invés de almejar se encaixar no subgênero, a artista subverte o mesmo, colocando a história em outro lugar, um local de progressiva introspecção, o que pode desagradar o público.
No entanto, o que é incômodo, na verdade, durante a projeção é o fato de Celine começar bem a obra e ir perdendo o rumo. Com desenvolvimento da protagonista, Lucy (Dakota Johnson), a trama parece consistente: uma casamenteira (Dakota Johnson) bem sucedida, deseja ser rica. Ela conhece o homem perfeito (Pedro Pascal), até que reencontra um grande amor do passado (Chris Evans). A simplicidade dessa premissa poderia render discussões criativas e contemporâneas.
Contudo, Song não apenas perde a mão do plot básico, como insere subplots, que desviam o foco do enredo principal e transformam o tom do longa-metragem completamente. A reviravolta pode fazer parte das ficções, é bem verdade, mas existem duas opções de trabalhar a atmosfera de uma produção, que geralmente são usadas: construí-la gradativamente ou convocá-la em um rompante e mantê-lo.
O que ocorre aqui é que nenhum destes fatores é aplicado. Após a virada da narrativa, as personagens perdem as conexões umas com as outras – no roteiro e nas atuações – e há uma confusão sobre qual história realmente está sendo contada. A principal questão aqui é a relação de Lucy com “os boys” dela ou o drama vivido por Sophie (Zoe Winters), sua cliente? A violência que a jovem sofre é grave e transforma completamente o filme, mas, ao mesmo tempo, não se dá espaço suficientemente para que esse enredo tenha o desenvolvimento necessário.
Além disso, não foi construída dinâmica alguma entre elenco ou nas direções (geral, de arte e de fotografia), que levasse a sessão para esse lugar. Todo o cenário discursivo se transforma em algo sombrio, porém a estética permanece. A decupagem é a mesma, a personalidade de Lucy também – mesmo que ela diga que está mal, é a mesma tonalidade do início da projeção –, as temperaturas, as luzes, os quadros, nada se modifica.
A sensação que resta é a de que Celine ficou com medo de fazer um longa fútil. Todavia, na indecisão se sua obra é um drama, um romance ou uma comédia romântica, o filme fica mal trabalhado. Com toda essa vontade de se levar a sério, Celine perde a oportunidade de criar uma grande romcom e de trabalhar os casais trazidos pelo roteiro. Lucy vai perdendo a química tanto com John (Evans), quanto com Harry (Pascal).
Toda a inserção do debate sobre saber o que se quer e de mulher independente também cai por terra, porque, no final das contas, Lucy escolhe a paixão juvenil ao invés de optar por aquilo que planejou sua vida inteira. E nada disso parece justificável no que é elaborado por Celine. Até mesmo a situação gravíssima de Sophie é finalizada de maneira leviana, simplesmente a colocando no mesmo ponto de partida que ela estava no começo da exibição.
Desta maneira, a produção da A24 é feliz em sua primeira parte. Há, no início, coerência e coesão entre visualidades, mesclando as cores pastéis com as rubras, com uma atuação do trio central que convoca essas tonalidades para suas atuações, com uma direção que enquadra mostrando o cenário ao redor, como nas romcoms dos anos 1990/2000. Mas, a história se perde e a sessão acaba sendo cansativa e esquecível.
Direção: Celine Song
Elenco: Dakota Johnson, Chris Evans, Pedro Pascal
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