Adeus, June (Netflix)

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Kate Winslet (Titanic) é uma artista esforçada. Além de ser uma intérprete que sempre elevou seu potencial dramático (até agora), Winslet demonstra realmente se importar com os seus projetos, tanto em termos do que ela oferta como resultado de seu trabalho, como quando está dando entrevistas e participando de eventos de divulgação. No entanto, em Adeus, June, ela quis participar de funções demais e não deu conta de entregar um resultado de excelência, como se espera dela.

Com um roteiro de seu filho, Joe Anders, além de atuar e produzir, Kate quis dirigir. No final das contas, o seu longa-metragem não é terrível e seu debut como diretora não é a pior coisa do mundo, porém falta coesão, narrativa e visualmente, na obra como um todo. June (Helen Mirren) não é conhecida para além da sua versão doente, por isso ela não é uma protagonista. As personalidades de seus quatro filhos, Julia (Winslet), Molly (Andrea Riseborough), Helen (Toni Collette) e Connor (Johnny Flynn) também não.

A centralidade da trama é evasiva, falta quem direciona o seu conteúdo e faça o público mergulhar naquele universo. O que a história foca, na realidade, é na degradação de June, a matriarca da família, a incompetência masculina de se responsabilizar por algo, do pai, Bernie (Timothy Spall) e os atritos das filhas, que brigam pela atenção da mãe acamada. Neste sentido, esse poderia ser somente um dos lados apresentados no enredo. Mas, falta aqui uma aparente consciência sobre trama e desenvolvimento narrativo e de personagem. Não tem tensão, reviravolta, transformação expressiva das figuras dramáticas*.

O que mais incomoda aqui, em termos de enredo, é que falta trama. Os conflitos soam superficiais, como se Joe tivesse medo de se aprofundar mais nas emoções expostas na tela. Este não é um roteiro realmente adaptado sobre a experiência de Kate e Joe com a mãe e a avó, respectivamente, porém é inspirado na vivência dos dois. Talvez, um desejo de proteger a imagem dela, ou qualquer questão delicada deste tipo, tenha tornado tudo tão planificado. Como as camadas não são investigadas, a sessão fica cheia de momentos feitos para emocionar, que não causam a sensação esperada.

Além disso, a atuação de Kate nunca esteve tão mal. O texto verbal estava completamente automático, como se sua mente não estivesse presente. Os seus colegas de cena, em sua maioria, não passam vergonha, mas também não entregam grandes performances. Quem mais se destaca qualitivamente é Spall que consegue criar em sua interpretação a profundidade que falta na escrita. Tanto em termos de movimentação quanto de uso das vocalidades. Isso ajuda o seu Bernie a parecer mais crível.

Porque, de fato, o grande problema de Adeus, June é ausência de contraste. Neste sentido, em termos de iluminação e enquadramentos, a produção também é repetitiva. O que salva a decupagem é justamente a noção de Kate sobre o trabalho de ator. Através de “olhares” laterais da câmera ou dos jogos de plongée e contra plongée, o público consegue ver aquelas personas sob outra ótica. Desta forma, ainda que o ecrã pareça sempre tomado de luz hospitalar, algumas dinâmicas da direção elevam a potencialidade das cenas.

Assim, o longa não é exatamente ruim. Contudo, devido ao fato de existir falta de risco e criatividade, tanto em termos formais quanto discursivos, a obra é um inexpressiva. Para completar, o título é subgênero natalino, o que é bem impressionante, já que do início ao fim da sessão é quase tudo bastante triste. Não há nada que link a exibição ao festejo natalino, sendo que todo seu conteúdo poderia se passar no Halloween ou no carnaval da Bahia e não faria diferença.

 

Direção: Kate Winslet

Elenco: Kate Winslet, Andrea Riseborough, Timothy Spall

 

*Dramáticas no sentido de dramatúrgicas

Assista ao trailer!

Adeus, June (Netflix)
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