Desejo. Ato Noturno fala sobre desejo em todas as suas camadas. O sexo e o sensual estão ali, estampados na tela, em carne viva, com seus tons rubros, que aparecem a todo tempo para lembrar aos espectadores que este é um filme sobre vontade.
No entanto, Filipe Matzembacher e Marcio Reolon equilibram a produção com os toques de azul, as câmeras paradas e as movimentações gentis da câmera, deixando nítido que essa paixão é também controlada. Há uma mescla entre controle e explosão, que é transmitida pela direção, não apenas nas temperaturas, como na própria movimentação do elenco e da câmera.
Há um jogo entre distanciamento e proximidade, que elevam a potencialidade da profundidade da narrativa. Na história, Matias (Gabriel Faryas) e Fabio (Henrique Barreira) são atores talentosos e querem, à todo custo, vencer em suas carreiras. Ao mesmo tempo, Matias se relaciona com Rafael (Cirillo Luna), que é um homem branco, sulista e candidato à prefeitura de sua cidade.
Essa união de tensões conta com estes afastamentos e aproximações estabelecem uma tensão, que preenche a tela e alcança a atenção da plateia. Além do clima de suspensão, há uma construção progressiva de intimidade entre Matias e Rafael , apesar do casal já ser bastante físico desde o início da projeção.
Dentro desta lógica, em termos discursivos, a fisicalidade da dupla contrapõe o conservadorismo de uma extrema-direita que aparece no longa-metragem intensamente, porém jamais com diálogos expositivos. Aqui há uma mistura real entre o ódio explícito de uma classe preconceituosa, com o tesão e a expansão de um par romântico interracial, de dois homens, de mundos completamente distintos.
Neste sentido, o enredo é quase todo coeso. Talvez, a morte de Fabio precisasse de um maior desenvolvimento. Ela não afeta a trama e soa apenas como um efeito sensorial efêmero.Apesar de Ato Noturno parecer ter a intensão de querer passar sensações e possuir uma decupagem que dá destaque a planos gerais que absorvem quem assiste – ampliando a impressão de voyerismo -, a história das personagens também são trabalhadas.
O público consegue compreender as motivações e emoções de cada um. Contudo, é nesse assassinato que o roteiro falha em explorar consequências destes atos, tanto na vida de Matias quanto de Rafael. Ainda assim, a produção vale a pena de ser conferida por seu apuro técnico, como em termos de iluminação e enquadramento, e pela força política de sua narrativa.
Em algumas sequências, como nos momentos do ensaio e das apresentações de teatro, o elenco não dá conta de apresentar organicidade. Todavia, nos instantes que os intérpretes precisam performar conexão e contracenam com uma ou duas pessoas, as cenas crescem e se tornam mais críveis.
É por este motivo que o longa de Matzembacher e Reolon não é perfeito e não quer ser. A obra entrega um retrato fidedigno de mentes disruptivas, que pregam o apelo visual, o apuro estético e a elevação moral, por meio da quebra de velhões padrões retrógrados. Este é um cinema poderoso, que funciona porque pode chocar parte dos consumidores e deleitar a outra parte.
Direção: Filipe Matzembacher, Marcio Reolon
Elenco: Gabriel Faryas, Cirillo Luna, Henrique Barreira
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