Crítica: Inferno

Em 2003, o mundo foi tomado por uma febre literária chamada O Código Da Vinci, obra escrita pelo norte-americano Dan Brown. O livro era uma trama policial protagonizada por um professor de simbologia da Universidade de Harvard chamado Robert Langdon que, após o assassinato do curador do Museu do Louvre, se via envolvido em uma trama sobre segredos da Igreja Católica que colocavam em cheque a divindade de Jesus Cristo. A obra ocupou o topo das listas de livros mais vendidos de todo o mundo, gerou documentários e discussões sobre a veracidade das teorias apresentadas por Brown e transformou o escritor em um dos autores mais populares da primeira década do século XXI.

Não demorou muito para Hollywood transformar a trama de O Código Da Vinci em uma grande produção dirigida por Ron Howard (Uma Mente Brilhante) e protagonizada por Tom Hanks em 2006. Claro que o filme faturou muito, cerca de US$ 217 milhões só nos EUA, mas, para a crítica, o resultado não foi dos melhores. Apesar dos esforços de Howard na adaptação, transformar em ficção cinematográfica um livro calcado basicamente em teorias e informações históricas era complicado. Com personagens desleixadamente desenvolvidos, O Código Da Vinci parecia um vídeo institucional ou educativo, daqueles tipo Telecurso 2000, sobre as elucubrações e teorias conspiratórias de Brown acerca da Igreja Católica. Com o sucesso do primeiro filme veio Anjos & Demônios, que parecia padecer do mesmo mal numa trama de suspense sobre a sucessão dos papas no Vaticano.

Chegando tardiamente aos cinemas, Inferno é o terceiro filme da franquia. Assim como os outros, o longa é dirigido por Ron Howard e protagonizado por Tom Hanks. Como os demais, também sofre com seus inúmeros problemas. Robert Langdon segue como um personagem desenvolvido tropegamente e tem como função exclusiva guiar o espectador na solução do enigma da trama. Sem motivações concretas ou uma psicologia mais complexa e instigante ao público, dessa vez, a personagem de Hanks está às voltas com o perigo iminente de um vírus, que promete se propagar graças a ação de um grupo interessado em conter o crescimento da população mundial.

infernohanks

Além da ausência de aprofundamento na psiquê de Langdon, que segue plano e simplificado por características peculiares como suas fobias (algo que não é o suficiente para constituir um sujeito como personagem), Inferno se apoia nas inúmeras teorias de Dan Brown, construídas graças ao grande quebra-cabeça que idealiza em suas páginas e que envolve artefatos e personagens históricas. Tal qual O Código Da Vinci ou Anjos & Demônios, Inferno segue na chave da explicação didática desse quebra-cabeça ao espectador através de diálogos expositivos protagonizados por Langdon e pelos demais personagens. Por obra irônica do destino, esse cacoete da franquia, em dado momento, é lembrado na própria trama quando alguém repreende o professor por sua obsessão pela leitura esmiuçada de tudo o que lhe aparece. Assim, Inferno não desafia o raciocínio do espectador, já que explica absolutamente tudo, entregando a resolução dos seus ganchos de “mão beijada”, tampouco gera empatia, afinal não é marcado pela passagem de personagens complexas e que inspiram afeto no espectador.

Com três adaptações igualmente sofríveis, as conclusões que podemos extrair da jornada de Robert Langdon nos cinemas são as seguintes: a) as histórias de Dan Brown são difíceis de serem adaptadas para a tela grande; ou, talvez b) a série literária de Dan Brown tenha uma abordagem que necessita de alterações drásticas em prol do incremento das suas personagens, não necessariamente do percurso traçado por elas. Inferno não corrige os erros anteriores, pelo contrário, se alimenta deles, os utiliza largamente em prol de uma trama igualmente enfadonha de suspense cujas teorias sempre parecem mais interessantes quando são objeto de séries documentais do Discovery Channel, por exemplo. Isso não é uma ironia, experimente assistir algum desses programas do canal sobre as teorias do Dan Brown, são melhores do que qualquer um dos três filmes do Ron Howard.

Assista ao trailer do filme:

 

Wanderley Teixeira418 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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