Crítica: De onde eu te vejo

O diretor Luiz Villaça é conhecido por trazer para o público histórias marcadas por protagonistas de carne-e-osso, ou seja, pessoas com problemas e dilemas reais. De onde eu te vejo não fugiria a uma regra que trouxe para o espectador o filme Cristina quer Casar e a série exibida no Fantástico Retrato Falado, ambos protagonizados por Denise Fraga, esposa do realizador. Assim, ainda que De onde eu te vejo se apresente muito bem ao público como uma agradável comédia romântica, utilizando com segurança as marcas do gênero cinematográfico, o filme de Villaça tem muito mais a dizer do que as fronteiras desse nicho de produção acabam apresentando aos olhos do espectador.

No longa, Villaça nos apresenta a Ana Lúcia e Fábio, papéis de Denise Fraga e Domingos Montagner, um casal que decide se separar após anos de relacionamento mas que opta por viver muito próximo um do outro, já que o apartamento de um tem como vista o apartamento do outro. Através desse arranjo, Ana Lúcia passa a acompanhar a rotina de Fábio em sua nova vida e vice-versa. Ao longo do filme, os personagens passam a refletir sobre o término do relacionamento, mas também sobre a forma como conduzem as suas próprias vidas.

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Ambientado em São Paulo, a grande metrópole brasileira é praticamente um personagem do filme, repleta de memórias e simbologias em cada esquina para Ana Lúcia e Fábio. O longa de Villaça se apropria muito bem desse recurso para narrar uma crônica do cotidiano de pessoas comuns através de reflexões marcadas pela simplicidade e pelo humor sobre a maneira como encaramos o encerramento de alguns ciclos de nossas vidas (e sobretudo o apego que temos com o conforto que determinadas situações nos trazem), mas também como nos reinventamos para dar início a outros. De onde eu te vejo é recheado de insights pontuais a respeito dos relacionamentos humanos (não apenas amorosos), que a despeito de soarem clichês ou superficiais, estão mais para simples (e não simplórias) ponderações sobre a vida. E como negar que, muitas vezes, a sabedoria e a resposta para nossas principais angústias estão nas conversas mais banais com amigos, mães, pais, filhos, colegas de trabalho, que, por vezes, através das analogias mais esdrúxulas ou clichês são capazes de fornecer a verdadeira solução para os nossos momentos mais dolorosos?

É através desse motor que De onde eu te vejo funciona, oferecendo ao público ainda a longeva e bem-sucedida parceria entre Denise Fraga e Luiz Villaça, que se entendem como ninguém no set, ao lado de um ótimo Domingos Montagner e um elenco que dispensa elogios, todos em ótima forma. Agradável, leve e carinhoso com o seu público por jamais subestimar a força e a profundidade que os momentos mais simples da nossas vidas possuem, De onde eu te vejo é um filme repleto de virtudes e acertos.

 

Wanderley Teixeira414 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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