Crítica: A Bruxa

 

Por muitos anos, os fãs do gênero terror se queixaram da produção de filmes ruins nesse nicho da indústria. Muitos remakes de filmes orientais, muitas fórmulas narrativas e muito artificialismo estético voltado para a produção de efeitos nas plateias em títulos que se multiplicavam pelo circuito de exibição, todos eles priorizando uma série de truques cinematográficos e esquecendo alguns dos principais elementos que fazem o gênero conceber histórias de gelar a espinha de qualquer ser humano com sangue correndo em suas veias: uma atmosfera de medo ascendente e uma construção narrativa envolvente com a composição de personagens marcados por densos conflitos psicológicos. Filmes como O Exorcista ou O Iluminado não são sucessos até hoje à toa. Acontece que nos últimos anos ficamos muito bem servidos, não temos do que reclamar. Desde Invocação do Mal de 2013, somos surpreendidos todo ano por longas que primam por essas características e deixam de lado qualquer truque malandro para assustar criancinhas. Títulos como Corrente do Mal, A Visita, The Babadook (disponível no Netflix) e o austríaco Boa Noite, Mamãe! são ótimos exemplares dessa recente leva. A Bruxa segue o caminho de todos eles ao apoiar-se em lendas inglesas sobre bruxaria a partir de uma apavorante experiência vivenciada por uma família no interior da Inglaterra por volta de 1630.

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Estética aplicada: Longa beneficia-se por um uso consciente da linguagem cinematográfica em prol da construção de uma atmosfera apavorante.

 

Em A Bruxa acompanhamos o casal William e Katherine e seus cinco filhos após serem expulsos do lugar onde moravam por terem crenças diferentes daquelas que os seus vizinhos possuíam. O casal e seus filhos então passam a viver isolados da sociedade em uma propriedade próxima de um bosque bastante sinistro. Quando o filho mais novo de William e Katherine desaparece misteriosamente uma série de eventos com todos os integrantes dessa família começam a acontecer e eles passam a travar uma disputa com forças sobrenaturais para descobrir o que de fato está por trás de todos os fenômenos que lhes são apresentados.

Esteticamente requintado, soando em muitos momentos até mesmo como um longa pretensioso (mas não é), A Bruxa busca nas cores da sua sinistra sua fotografia e em recursos como jogos de luzes a construção de uma atmosfera sombria que contribui para a crescente tensão da sua trama central. O diretor Robert Eggers ao mesmo tempo que realiza um filme pequeno e de pouca pirotecnia digital ou violência gráfica, prioriza o uso sofisticado de uma linguagem cinematográfica para transportar o espectador para uma história sinistra que mantém o corpo gélido durante boa parte da projeção. O tom da “narração de uma lenda” está presente ao longo de todo o filme do realizador e isso além de transformar A Bruxa em um exercício do seu gênero muito peculiar, o qualifica como um filme extremamente eficiente em seus propósitos.

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Ecos de A Vila: Há momentos em que o filme lembra o título dirigido por M. Night Shyamalan em 2004.

 

Há uma consciência a respeito da importância que a economia dos recursos do gênero possuem para a própria eficiência do diálogo entre a obra e o seu público, fazendo com que A Bruxa, diferente de outros longas do nicho, não seja um filme orientado pelo terror explícito, mas um longa que permite que o sobrenatural seja revelado ao público na medida em que seus personagens mergulham nesse universo desconhecido. Ao priorizar a construção de uma história, dos seus personagens e o uso dos recursos audiovisuais em prol de um filme que não apenas consegue gerar uma cartela de efeitos de alta voltagem no espectador, mas que também serve à construção de uma obra cinematográfica esteticamente sofisticada, A Bruxa brinca com toda a cartela de elementos do gênero: magia negra, possessões e crianças e animais sinistros.

Em certa medida, determinadas leituras sobre a paranoia coletiva e os mecanismos de controle social através do medo extraídos de filmes como A Vila do M. Night Shyamalan podem ser feitas, possibilitando paralelos interessantes entre as duas obras. O fato é que A Bruxa é um exemplar maduro de um gênero subestimado e temido por muitos, mas que quando consegue utilizar o seu programa de efeitos no espectador aliado a um poderoso jogo narrativo e estético gera filmes poderosos como esse que merecem ser vistos na tela de um cinema.

 

Wanderley Teixeira418 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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