Netflix: Five Came Back narra o impacto da 2ª Guerra na vida de 5 diretores

A partir do livro Cinco Voltaram, de Mark Harris (editado aqui no Brasil pela Objetiva), a Netflix e o diretor Laurent Bouzereau em parceria com Steven Spielberg (que assina a produção), lançaram recentemente Five Came Back, uma série documental composta por três episódios que aborda a participação de cinco dos mais importantes diretores de cinema da primeira metade do século XX na Segunda Guerra Mundial: Frank Capra, William Wyler, John Ford, John Huston e George Stevens. Os cinco se alistaram em uma subdivisão específica do exército americano para realizarem filmes que dessem conta de mostrar à população norte-americana o que acontecia no front de batalha, concebendo títulos que ao mesmo tempo em que consolidaram o documentário no país, serviram como propaganda da campanha americana e foram o primeiro contato em imagem com os horrores da guerra.

O mais interessante do trabalho de Bouzereau é realizar esse relato histórico dando conta do lugar que seus personagens estavam antes, durante e depois da guerra mundial (assim são organizados os três capítulos do documentário, inclusive), fazendo-nos testemunhar ao final do último episódio da série que nenhum dos cinco diretores que participaram da mesma permaneceram os mesmos após sua experiência. Isso é sentido, inclusive, a partir de um panorama que a série faz das obras de ficção que eles dirigiram quanto retornaram para os EUA ao fim do conflito. Frank Capra, por exemplo, dirigiu A Felicidade não se Compra, que pode não ter sido aclamado em sua época, mas que se tornou um dos filmes mais reverenciados do cinema americano anos depois, se tornando presença obrigatória na programação televisiva de final de ano no país. William Wyler, que já era um diretor renomado com Jezebel e A Carta, cai de vez nas graças da Academia com um filme que buscava capturar o espírito do pós-guerra, Os Melhores Anos de Nossas Vidas, vencedor do Oscar de melhor filme em 1947. O caso mais emblemático, contudo, talvez seja o de George Stevens, que antes da guerra era conhecido por ser um diretor de filmes leves, a maioria do gênero comédia, volta do conflito realizando obras densas como Um Lugar ao Sol, Assim Caminha a Humanidade e, sobretudo, O Diário de Anne Frank.

Compondo seu relato a partir de imagens dos filmes sobre a guerra concebido pelos cinco diretores, com depoimentos dos mesmos e participações de cinco importantes realizadores do nosso tempo, Steven Spielberg (Minority Report), Guillermo del Toro (O Labirinto do Fauno), Paul Greengrass (O Ultimato Bourne), Francis Ford Coppola (O Poderoso Chefão) e Lawrence Kasdan (roteirista de Star Wars) – tudo a partir da narração de Meryl Streep -, Five Came Back não quebra muito os padrões do formato em sua estrutura, mas em seu esquema convencional não compromete a sua narrativa e dá conta da jornada e da importância do trabalho dos seus protagonistas no período relatado como de suas transformações pessoais em decorrência dos eventos. É certo que não sabemos até que ponto a presença do quinteto Spielberg, del Toro, Greengrass, Coppola e Kasdan é fundamental ao documentário pois apesar de em momentos isolados os mesmos realizarem esforços de interpretação daqueles filmes e estabelecerem conexões entre eles e suas vidas ou carreiras (principalmente Spielberg como judeu e tendo retratado tantas vezes a Segunda Guerra) em muitos momentos os mesmos parecem importar apenas como narradores das trajetórias dos cinco protagonistas da série.

Ainda que parte dessas produções tenham sido marcadas por escolhas questionáveis, como a reconstituição dos eventos em alguns ou a campanha anti-Japão de Know Your Enemy: Japan mesmo após o conflito, o final do seu terceiro episódio, o mais forte dos três, faz um inventário da odisseia do grupo de cineastas.Five Came Back deixa no espectador as reflexões de sua marca humanista. Quando narra, por exemplo, o impacto que as imagens de Nazi Concentration Camps, de George Stevens, primeiro registro real dos campos de concentração nazista, causaram no mundo e na vida do seu próprio realizador ou a humanidade de Let There Be Light, que tratou pela primeira vez dos traumas psicológicos dos soldados, fica a certeza da força e da importância não apenas daquilo que é objeto de interesse da série documental como dela própria em nossos tempos. É um relato vivo da marca que um evento como esse é capaz de deixar nos seres humanos, tanto física (William Wyler ficou surdo), como na própria identidade de cada sujeito que vivenciou tudo aquilo (caso de George Stevens que disse não ser capaz mais de fazer comédias após a guerra). Mais emblemático ainda é que mesmo diante de tudo, muitos ainda são capazes de enxergar esperança, como Frank Capra, que encerra Five Came Back dizendo “Há bondade no mundo. Isso é maravilhoso.”, evidenciando que mesmo sendo um soco no estomago muitas vezes, o documentário é um relato que consegue fazer uso do passado para lançar horizontes reconfortantes no futuro, como a História deve ser.

Obs.: Os filmes mencionados no documentário também estão disponíveis no catálogo da Netflix.

Assista a um trailer do documentário: 

 

Wanderley Teixeira387 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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