Longa estrada da fúria

O percurso de George Miller para trazer Mad Max de volta às telas


 

Cara nova: O diretor George Miller nos sets com o seu novo Max, o ator inglês Tom Hardy

 

Em um futuro pós-apocalíptico, no qual água e petróleo são escassos, a única paisagem que se vê é composta por muita areia e sol e, consequentemente, o homem se rende à loucura, um ex-policial tem mulher e filho assassinados com crueldade por uma gangue de motoqueiros ensandecidos. Este foi o pontapé inicial dado pelo australiano George Miller para apresentar no final dos anos de 1970  Mad Max, uma das franquias de ação mais icônicas do cinema. Catapultando a carreira de Mel Gibson e rendendo a ele alguns bons trocados, Mad Max detém o feito de ser uma das produções australianas que mais arrecadou fora do solo nativo, como também a produção mais lucrativa da história do cinema ao conseguir superar com folga a difícil equação orçamento/ bilheteria logo no primeiro filme da franquia.

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Antigo Max: Mel Gibson chegou a ter seu retorno cogitado, porém a ideia foi abortada quando Miller decidiu fazer um reboot da série, que teve a benção do antigo intérprete.

 

Recomeço e um novo Max

Do último Mad Max lançado, Mad Max – Além da Cúpula do Trovão (1985), até Mad Max – Estrada da Fúria, longa que retoma a série cinematográfica e que será lançado comercialmente nesta quinta-feira (14), foram 30 anos. Em 2003, Mel Gibson chegou a conversar com George Miller sobre a possibilidade dele retornar aos cinemas como Max Rockatansky em um quarto filme da série, mas sua atribulada agenda com as filmagens de A Paixão de Cristo e posteriormente Apocalipto e a dificuldade que o diretor enfrentava para encontrar novas locações fizeram o ator naturalizado na Austrália sair da jogada. Novos nomes foram pensados nesses anos em que Miller desenvolveu projetos de tentativa de revitalização da série, entre eles Heath Ledger (Batman – O Cavaleiro das Trevas), Sam Worthington (Avatar), Jeremy Renner (Os Vingadores) e Eric Bana (Livrai-nos do Mal).

Contudo,  Mad Max – Estrada da Fúria teve em Tom Hardy  o rosto, a voz e o corpo de Max Rockatansky. O ator inglês, em ascensão desde que atuou em filmes como A Origem, o drama Guerreiro Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, no qual deu vida ao vilão Bane, chegou a consultar o antigo intérprete do personagem em busca de alguma inspiração. Segundo o jovem protagonista, em entrevista a revista Details, Gibson não fez nenhuma recomendação ou aconselhou o novo Max. Após uma longa conversa com o inglês, que nada teve a ver com a franquia, o ator da primeira trilogia Mad Max ligou para o agente de Hardy e disse: “Vocês encontraram um cara tão louco quanto eu”. E dessa forma Hardy entende  o personagem principal de Mad Max – Estrada da Fúria, “Tudo machuca em Mad Max. Esse tipo de personagem com feridas abertas e não cicatrizadas me excita. São pessoas comuns em circunstâncias extraordinárias, são falhos”.

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Filme feminista: Personagem de Charlize Theron na revitalização da franquia é tão importante quanto o icônico Max.

 

Mad Max feminista

Max não carrega o filme todo nas costas desta vez. Para Estrada da Fúria, o cineasta George Miller criou uma protagonista feminina que tem tanta (ou mais) força que o próprio Mad Max do título, a Imperatriz Furiosa, vivida pela vencedora do Oscar Charlize Theron (Branca de Neve e o Caçador). Ao jornal O Estado de S. Paulo, Miller definiu da seguinte maneira a relação de co-protagonismo dos dois personagens no filme: “Max e Furiosa se estranham, brigam e eventualmente se aliam, mas cada um tem a sua trajetória. Estrada da Fúria pode ser chamado de A Ascensão da Furiosa, aqui eu liberei o meu lado feminista (risos). Mas o mérito é da Charlize que criou uma Furiosa com a dureza que eu imaginava e lhe emprestou sua doçura. Atores e atrizes formam uma raça à parte, com o Mel (Gibson) foi a mesma coisa. Ele deu ao personagem mais do que havia imaginado”.

A inserção e a importância de uma personagem feminina como Furiosa no universo da ação frenética de Mad Max também foi encarada  de forma positiva pela própria Charlize Theron, que tem aproveitado as entrevistas de divulgação do longa para “puxar a orelha” no machismo que ainda impera em Hollywood, sobretudo no circuito das grandes produções. Em entrevista ao The Hollywood Reporter, Theron disse: “Eu sempre quis explorar esse tipo de gênero um pouco mais, sobretudo porque sempre foi dito que mulheres não gostam de filmes de ação. Além disso, acho que as personagens femininas sempre foram muito deslocadas nesse tipo de produção. Por que veríamos um filme onde elas estão sempre atrás dos protagonistas masculinos? Não queremos ser os rapazes, mas em um mundo pós-apocalíptico, nós encontraríamos nossa forma de sobreviver também!”.

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Orçamento inflado: Mad Max – Estrada da Fúria é o longa de maior orçamento da carreira do diretor George Miller.

 

Super-produção

O orçamento da nova produção é bem mais inflado do que àquele que George Miller usou para o seu primeiro Mad Max. Enquanto o filme de 1979 usou U$S 300 mil nas filmagens, o longa atual gastou cerca de U$S 150 milhões. Também pudera, o Mad Max de 1979 era uma despretensiosa distopia sobre a vingança e desde o segundo longa, o próprio universo do protagonista foi ampliado, apresentando-nos a muito mais personagens e inserindo-o em sequências de ação cada vez mais perigosas, todas envolvendo veículos. Com a competição dos anos 2000 e um cinema cada vez mais inclinado ao espetáculo, com atrativos como o 3D e novos sistemas de som, Mad Max – Estrada da Fúria não poderia escapar dos gastos maiores.

No roteiro, Miller contou com o trabalho de Nick Lathouris, que escreveu o primeiro Mad Max. Segundo o realizador, a ideia não é fazer um remake do antigo Mad Max. Assim, Hardy vive o mesmo personagem de Mel Gibson sem que seja o mesmo Max. Ficou confuso? Nas palavras do diretor trata-se de um reboot, uma nova versão do universo que o próprio George Miller criou em 1979. “Mad Max é uma mitologia em cima de outras mitologias. O sujeito solitário que se torna herói mesmo não querendo, tem raízes na tragédia grega, é Orestes. Quando pensei em retomar a saga pensei que o Max não poderia mais ser o mesmo homem. O que nós queremos é reinventar a série. Enquanto no segundo filme tínhamos uma personagem feminina que era uma guerreira, aqui temos a Furiosa que encara Max de igual para igual”, disse Miller ao Estadão.

 

Wanderley Teixeira405 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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