Crítica: Versos de um Crime

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O início de uma revolução: Burroughs (Ben Foster), Ginsberg (Daniel Radcliffe) e Carr (Dane DeHaan) preparam o seu primeiro manifesto contra os canônes da cultura americana na Universidade de Columbia.

 

A geração beat foi um movimento literário que tomou impulso no final da década de 1950 e início dos anos de 1960. Cansados do excesso de veneração a canônes e valores conservadores da cultura norte-americana, um grupo de jovens rompeu com os padrões vigentes através de uma produção intelectual inspirada. Movidos a jazz, drogas e sexo livre esses escritores produziam compulsivamente e apresentavam uma narrativa intensa, com fluxo de pensamento desalinhado, abusando do emprego de gírias e palavrões. Participaram desse movimento o poeta Allen Ginsberg (de Howl), o escritor William Burroughs (Naked Lunch) e, claro, Jack Kerouac (que imortalizou Neal Cassady como um herói para a geração da segunda metade do século passado em On The Road). Mais tarde, esse grupo se revelaria como a inspiração para a geração de ouro de cineastas norte-americanos da década de 1970 e bandas como os Beattles e o The Doors, por exemplo.

Versos de um Crime mostra a gênese do movimento personificada na figura de Lucien Carr, um jovem com pouco talento mas muita rebeldia que acaba inspirando essas três figuras da geração beat, Allen Ginsberg, William Burroughs e Jack Kerouac, em especial Ginsberg, com quem Carr teve um breve mas intenso romance. Carr foi o responsável por inspirar os três escritores a se tornarem quem são hoje, utilizando as potencialidades dos três para materializar em verso e prosa o espírito beat. No entanto, Carr se envolveria em uma trama de assassinato que acabou fragilizando a perpetuação das relações do grupo e cada um seguiu o seu próprio caminho.

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Pacto de sangue: Carr e Ginsberg selam uma união que definiria a carreira e a vida do poeta.

 

O filme de John Krokidas é bastante linear e pouco inventivo como narrativa audiovisual. O realizador se apoia no interesse natural do espectador pela história, que é mantido graças aos nomes envolvidos na sua trama (Ginsberg, Kerouac e Burroughs) e não aos esforços dele como cineasta. Versos de um Crime mantém a preocupação com a gênese do fenômeno cultural beat e não consegue passar em imagens o espírito do grupo. Fazendo uma inevitável comparação, Walter Salles conseguiu, com toda a simplicidade que lhe é inerente, trazer para o seu Na Estrada a falta de linearidade, o pensamento pulsante e a atmosfera libertária da produção beat. Versos de um Crime não consegue dar conta de demandas que deveriam ser atendidas para além da simples execução de um roteiro. Krokidas não chega a comprometer o longa com essa decisão, apenas o torna menos interessante do que poderia ser.

Daniel Radcliffe até que se esforça como Ginsberg (sim, esforço é a palavra certa para esse caso), mas Dane DeHaan (atenção para esse rapaz pois em breve ele viverá James Dean) chama o filme para si como o instável Lucien Carr. Ben Foster também está ótimo como William Burroughs, assim como Jack Huston na pele de Kerouac. Há participações pontuais de veteranos como Jennifer Jason Leigh (interessante como a mãe de Ginsberg), Kyra Sedgwick e Michael C. Hall, como David Krammerer, a vítima de Carr. Elizabeth Olsen, por sua vez, é subaproveitada como a esposa de Kerouac, o que é uma pena.

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Pedra no sapato: Personagem de Michael C. Hall é o elemento desestabilizador do grupo.

 

Versos de um Crime é um filme “quadradinho” e linear demais para retratar (ou introduzir) para a audiência do cinema (sempre muito diversificada) o que representou a geração beat. Apesar de trazer o embrião do movimento, John Krokidas não se preocupou em traduzir em imagens as características da escrita do grupo, o que seria essencial para torná-lo uma obra viva e menos banal do que ela acaba sendo. No final, Versos de um Crime se torna apenas um capítulo burocrático e didático, como essas páginas de armazenamento de curiosidades sobre um determinado fenômeno, personalidade ou obra que a gente encontra na Internet. Como obra cinematográfica poderia se inspirar pelo menos um pouco na subversão dos seus protagonistas.

 

Wanderley Teixeira405 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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