Crítica: T2 Trainspotting

Nem que se dedicasse ao extremo, o diretor Danny Boyle conseguiria em T2 Trainspotting um resultado semelhante ao do filme cuja história dá prosseguimento, Trainspotting: Sem Limites, de 1996. O impacto cultural daquele longa de vinte anos atrás não é resgatado por esta continuação, afinal o Boyle de hoje (vencedor do Oscar por Quem quer ser um Milionário? e requisitado pela indústria) não é o mesmo diretor indie da década de 1990, nem o cinema é o mesmo daquela época, fazendo com que o que fora apresentado como arrojado tempos atrás em Trainspotting seja considerado repetição atualmente. Com uma trama baseada no livro homônimo de Irvine Welsh, o filme de 1996 contava a história de um grupo de rapazes de Edimburgo na Escócia viciados em heroína, construindo uma jornada de recuperação de um deles, Renton, papel de Ewan McGregor. O filme é cultuado até hoje por conseguir captar o espírito de uma geração e dimensionar para as telas o vício pelas drogas, com imagens lisérgicas e montagem “nervosa” que acompanhava uma câmera igualmente inquieta.

Tentando explorar o consumo do sexo (prostituição, pornôs na internet etc.) como a compulsão dos nossos tempos, T2 Trainspotting até deixa a desejar nesse quesito, já que usa isso apenas como pano de fundo para o seu interesse primeiro, seus personagens. Baseado em Pornô, também de Irvine Welsh, o esforço de dimensionar sensorialmente um vício cede lugar para a narrativa desse grupo de agora quarentões tentando ajustar mágoas e dívidas do passado. Acontece que, ainda que explore pouco esse universo do comércio sexual que o cerca, sendo bastante tímido nesse departamento, a continuação dirigida por Danny Boyle não deixa de ser menos interessante por demonstrar um engajado movimento de levar seus personagens a lugares nunca antes visitados, oferecendo um ponto de vista amadurecido sobre suas vidas, escolhas, relações, um mergulho profundo e consciente que talvez a juventude de vinte anos atrás não poderia proporcionar

Em T2 Trainspotting acompanhamos Renton retornando a Edimburgo com a vida refeita e livre das drogas. Após os eventos do primeiro filme, os demais rapazes não tiveram o mesmo destino, lidando com atividades clandestinas, passando por dificuldades para superar o vício e cheios de problemas familiares. Na medida que Renton retorna ao convívio social com seus amigos, ele revela o verdadeiro motivo da sua volta.

Em seus aspectos formais, T2 Trainspotting resgata a abordagem do longa de 1996, abusando de uma montagem acelerada e de diversificadas propostas de câmera. Enquanto lá isso tudo surgia como um experimentalismo de Boyle, que bebia da proposição de um cinema inclinado para a estética clipeira, aqui esses artifícios surgem como uma forma de demarcar o território para que o espectador reconheça aquele modus operandi de contar uma história nos moldes Trainspotting, algo que, inclusive já foi exaustivamente apropriado. Como já destacado, T2 Trainspotting cresce aos olhos do espectador pelo olhar que tem para seus personagens e sua história vinte anos depois, uma perspectiva que retoma o passado para avançar na sua reflexão a respeito de novas preocupações, entre elas a paternidade e o legado que esses personagens deixarão para os seus filhos.

 No lugar de uma continuação que resgata tramas e sujeitos por mero fetiche nostálgico, o longa tem como mérito trazer os mesmos personagens de antes porém com uma perspectiva diferente de si, algo que acaba justificando a existência da sequência não apenas por um ponto de vista mercadológico ou pelo apelo afetivo  que o primeiro longa tem com seus fãs. Em Trainspotting e ao longo da própria carreira de Danny Boyle, o que antes era anarquia estética e narrativa, hoje é cosmetizado pelo próprio cineasta, foi banalizado por um incontável número de filmes que o sucedeu e é usado aqui como assinatura. Diferente do longa de 1996, T2 Trainspotting não afirma seu brilho pelo arrojo formal, mas pela sua narrativa, demonstrando uma compreensão mais madura de Boyle para aqueles personagens que ajudou a dar forma vinte anos atrás com os icônicos desempenhos de Ewan McGregor, Ewen Bremner, Robert Carlyle e Jonny Lee Miller (ainda ótimos), uma mudança de prioridade válida, pertinente e bem aplicada pelo cineasta.

Assista ao trailer do filme:

 

Wanderley Teixeira405 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

0 Comentários

Deixe um comentário

Login

Welcome! Login in to your account

Remember me Lost your password?

Don't have account. Register

Lost Password

Register