Crítica: Invencível

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Incoerência: Tom do filme parece não ter relação alguma com as inclinações ideológicas da sua diretora.
Angelina Jolie parece obstinada em abandonar, pouco a pouco, sua carreira de atriz e se dedicar ao cinema de uma outra maneira, como diretora. Seja qual for a razão desta transição (tédio, capricho ou inquietação artística), Jolie já está no seu segundo longa-metragem, o badalado Invencível. Diferente de Na Terra do Amor e do Ódio, sua primeira incursão atrás das câmeras em um longa de ficção, Invencível parece mais o filme de um estúdio desesperado por uma menção nessa temporada de premiações do que um trabalho que tenha o olhar da sua cineasta. A história real do atleta olímpico e combatente de guerra Louis Zamperini é repleta de truques reconhecíveis que talvez fisgassem a Academia de Hollywood anos atrás. Existe a exaltação do herói americano, o retrato quase que cartunesco da vilania dos japoneses, os grandes cenários fotografados pelo experiente Roger Deakins e a trilha sonora surpreendentemente invasiva e que antecipa e sugere reações do espectador de Alexandre Desplat. Muito hollywoodiano, ou melhor, americano, para alguém com uma orientação política tão liberal quanto Angelina Jolie.
Como antecipado, Invencível narra a trajetória do descendente de italianos Louis Zamperini, interpretado pelo pouco conhecido Jack O’Connell. Zamperini foi um atleta olímpico, ganhador da medalha de ouro, que entrou para o exército durante a Segunda Guerra Mundial. Após um acidente de avião, Zamperini e outros soldados ficaram por mais de um mês à deriva no oceano, vulneráveis a ataques aéreos dos inimigos, tormentas e tubarões. Eles são resgatados por um grupo de japoneses que os tornam reféns. Louis passa a trabalhar para eles e sofre as piores humilhações nas mãos de Watanabe, um cruel cabo japonês.
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Revelação: Protagonista Jack O’Connell não compromete o filme de Angelina Jolie.
Tecnicamente, Invencível proporciona o espetáculo que se espera dele. Jolie conta com um dos melhores diretores de fotografia em exercício, Roger Deakins (Onde os fracos não têm vez, 007 – Operação Skyfall e Um Sonho de Liberdade), que se aqui não faz o seu melhor trabalho, ao menos nos entrega algumas belas composições de imagens que neutralizam os elementos mais incômodos do filme em certos momentos. Na condução da sua história, Jolie parece ainda tatear esse seu novo ofício, existe em Invencível uma certa dificuldade de lidar com flashbacks, por exemplo, e torná-los fluidos e interessantes na narrativa “presente” (a passagem da infância e da vida de atleta de Louie é imersa em clichês, como frases de efeitos, emoções artificiais etc.).
O melhor momento de Invencível é aquele em que o seu protagonista fica à deriva no mar com seus amigos, talvez uma das passagens que salvam o filme de maiores embaraços, já que o terceiro ato da trama é problemático com direito à interpretação canastrona de Takamasa Ishihara, um vilão que mais parece ter saído do pior dos animes japoneses, tamanha a sua falta de motivações. O protagonista do longa, o jovem Jack O’Connell, é o menor dos problemas do filme de Angelina Jolie, ao menos ele consegue evitar uma atuação over, um caminho possível já que o filme opta pela grandiloquência.
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Veterano na fotografia: Trabalho de Roger Deakins é um dos destaques do drama.
Ao final, completando a coleção de clichês hollywoodianos, Invencível ainda se revela um filme de inclinações cristãs (e, repito, é difícil pensar Angelina Jolie dirigindo um filme assim). Com uma lição moral sobre o perdão e sobre a importância do sofrimento e do esforço pessoal para se alcançar a vitória (sério que ainda tem gente que acredita nesse discurso?), Invencível termina da pior maneira possível. O filme era bem melhor enquanto acompanhávamos a penúria de três soldados em um bote salva-vidas no meio do oceano.
P.S.: O roteiro, cuja co-autoria é atribuída aos irmãos Coen, parece mais fruto do trabalho de Richard LaGravenese (de P.S. Eu te Amo) e de William Nicholson (Os Miseráveis), do que de Joel e Ethan Coen. Os realizadores de Fargo e Onde os fracos não têm vez entraram em um estágio avançado do filme, dando polimento ao trabalho já finalizado de LaGravenese e Nicholson. Resultado, assim como o filme tem mais a cara de um estúdio do que da sua diretora, o roteiro também não tem nada dos Coen e sim dos seus outros roteiristas menos badalados. É “gato por lebre”.
 

Wanderley Teixeira418 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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