Crítica: Independence Day – O Ressurgimento

Vamos combinar que Independence Day, de 1996, não era grande coisa. Produto do seu tempo, no qual a oferta de blockbusters não era a mesma de hoje e determinadas marcas narrativas dos filmes catástrofe eram digeridas com menos resistência pelo público, o longa de Roland Emmerich é um título que tem lá a sua parcela de diversão, mas é irremediavelmente datado. Vinte anos após o lançamento do primeiro filme, Independence Day – O Ressurgimento pretende ampliar os tentáculos da franquia, mas falha ao não atualizar a contento a sua lógica interna de entretenimento. Assim, no lugar do tom reverencial e nostálgico que tão bem fizera a Jurassic World, só para citar um exemplo recente, Independence Day – O Ressurgimento apresenta-se ao seu público como uma cópia dos antiquados esquemas do filme de 1996, a maioria deles camuflados, é verdade. Retornando à direção da continuação,  Emmerich parece querer vender o seu blockbuster como uma repaginação do “antigo”, algo que, curiosamente, o título jamais faz.

A premissa do filme não merece muito floreio, então vamos direto ao ponto. Basicamente, em Independende Day – O Ressurgimento, após vinte anos dos eventos do primeiro filme, a Terra volta a ser objeto de cobiça de alienígenas. O longa e toda a sua trama gira em torno desse novo ataque e dos esforços empreendidos pela humanidade (leia-se os EUA) no combate à ameaça extraterrestre. No novo longa, Emmerich pensa reescrever determinados elementos de filmes catástrofe que ele mesmo ajudou a popularizar em Independence Day, tais como o exagero na ação, a composição preconceituosa de certos personagens e o patriotismo exacerbado do discurso.

Em Ressurgimento, temos uma mulher ocupando a cadeira da presidência e outra na Força Aérea americana. Balela, os personagens masculinos continuam sendo dominantes e mais eficientes no front do que suas parceiras de cena. Sob  uma lógica semelhante, Emmerich retira do seu filme determinados símbolos nacionais e suaviza os discursos inflados, mas de nada adianta porque Independence Day – O Ressurgimento concentra todas as suas ações importantes e heroicas no quadro de personagens masculinos, brancos e norte-americanos. Ressurgimento tenta se vender como a atualização de um tipo de filme pelo qual Emmerich acabou ficando conhecido, mas, na verdade, é movido por ideias e esquemas do passado. A continuação é, portanto, pior que o antecessor, que, ao menos, era mais honesto em seus propósitos. Ressurgimento tenta camuflar todos os seus discursos equivocados, o que é bastante grave.

independenceday

Como espetáculo visual, Independence Day – O Ressurgimento também não se justifica. Diferente do filme de 1996, que, por sinal, tecnicamente, continua eficiente, Ressurgimento não impressiona a plateia nesse departamento. O longa não é um desastre na execução dos seus efeitos de computação gráfica, mas não traz nada que já não tenhamos visto ser aplicado de maneira mais interessante por outros títulos do gênero, inclusive pelo próprio Emmerich em O Dia depois de Amanhã e 2012. Nada que possamos dizer, por exemplo, que torne imprescindível o 3D ou que traga algo de significativamente novo nesse formato de experiência espectatorial. Até mesmo o ataque alienígena dessa continuação não tem o mesmo efeito da destruição de Nova York no filme de 1996, uma sequência que segue melhor do que àquela que vemos nessa continuação.

O tratamento que Ressurgimento reserva aos seus personagens também não é dos melhores. Semelhante ao que fazia no primeiro filme, Emmerich enche esta continuação de sujeitos que não são capazes de gerar empatia (mesmo os protagonistas da trama). O que é pior, o realizador tenta sugerir uma emoção, importância ou profundidade psicológica nessas figuras que jamais é perceptível na tela. Isso ocorre não apenas com os novatos (o jovem núcleo da Força Aérea e um grupo de crianças), mas também com os veteranos, como é o caso do presidente vivido por Bill Pullman, que, estranhamente, torna-se um homem afetado pelos eventos do primeiro filme (quando no longa de 1996 o personagem aparece do início ao fim como um sujeito cheio de vida, energia e até bom humor), e a ex-stripper e agora enfermeira interpretada por Vivica A. Fox, esposa do personagem de Will Smith no primeiro longa e que aqui é vítima de um súbito sumiço, o que só comprova a falta de apreço do realizador pelas personagens femininas, mesmo àquelas pelas quais poderia ter mais afeto.

Jamais conseguindo justificar a sua realização vinte anos depois do lançamento do primeiro filme, Independence Day – O Ressurgimento é um híbrido esquisito que surge no circuito comercial em uma fase na qual o cinema blockbuster amadureceu muito em seus diferentes formatos e propostas.  Não servindo nem mesmo como um filme que inspire sentimentos nostálgicos, como aconteceu, por exemplo, em Jurassic World, que ainda que se apoie em elementos do passado consegue acenar muito bem para o futuro, Independence Day – O Ressurgimento é um filme supérfluo. Esta continuação, que sequer é tão aguardada pelo público assim, perdeu uma oportunidade de se revitalizar e apresentar uma releitura das suas próprias marcas. Seja lá quais forem as razões que expliquem o seu resultado, o novo filme de Roland Emmerich optou pela repetição do que é ultrapassado e, o que é pior, uma reiteração escondida sob discursos pretensamente revisionistas. Desperdício total.

Assista ao trailer:

 

Wanderley Teixeira414 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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