Crítica: Big Little Lies – Episódio 1 “Somebody’s Dead”

Destaque no canal HBO nesse início de ano, Big Little Lies é uma minissérie baseado no livro da australiana Liane Moriarty cujos direitos foram adquiridos pelas atrizes Nicole Kidman e Reese Whiterspoon, produtoras e protagonistas da produção.  Hypada pelo seu elenco feminino, que ainda traz Laura Dern, Shailene Woodley e Zoe Kravitz, o projeto reúne elementos que já no primeiro episódio prometem manter a atenção do público pelos seus seis capítulos seguintes: um grupo de mães de classe média/alta, um assassinato na escola dos seus filhos e muito mistério envolvendo a vida dessas mulheres.

A minissérie começa quando a novata Jane (Woodley) chega em Monterey e conhece Madeline (Whiterspoon) e sua amiga Celeste (Kidman) no trajeto para levar seus respectivos filhos para a escola Pirriwee. Quando voltam para buscar suas crianças após passarem horas conversando, as três são surpreendidas pelo relato de agressão a uma menina que segundo a mesma teve como autor o filho de Jane, Ziggy. Logo, um conflito parece estar prestes a se instaurar entre a mãe da garota, Renata (Dern), e Madeline e suas amigas. Tudo isso é contado em flashback, já que a minissérie entrega que toda a competição entre as mães de Monterey culminou no assassinato de um personagem não revelado ao público pelas mãos de um autor também não descoberto. Cabe ao espectador começar a encaixar as peças desse quebra-cabeça à medida que conhece a vida dessas mulheres.

Com todos os seus episódios sob a direção de Jean-Marc Vallée (Clube de Compras Dallas e Livre), Big Little Lies inicia sua narrativa em Somebody’s Dead apresentando as marcas usuais do realizador no cinema. Vallée é adepto de uma montagem fragmentada que apresenta elementos futuros mesclados em cenas presentes que soa em diversos momentos como dispersão do diretor. Em Somebody’s Dead, por exemplo, o público é surpreendido com imagens de Ziggy, filho de Jane, aparecendo ao lado da cama da mãe durante a noite ou com uma cena de sexo que, ao que tudo indica, parece ser protagonizada por Celeste e seu marido Perry (Alexander Skarsgaard). Como em Clube de Compras Dallas, mas principalmente Livre, ninguém sabe muito bem o que Vallée pretende fazer com seu retalho de cenas, algo que parece fazer sentido apenas para o próprio diretor e que ele insiste como sua marca autoral.

Contudo, uma das maiores qualidades do cinema de Vallée está em Big Little Lies: seu trabalho com os atores. E com um elenco de primeira como esse e um roteiro sedutor como o de David E. Kelley (Ally McBeal), evidenciando que o formato ideal para esse material era mesmo o de uma minissérie e não um filme para o cinema, Vallée consegue exercitar o seu ponto forte em grande forma. A começar por aquela que foi a protagonista absoluta do primeiro episódio, Reese Whiterspoon. Naquele que tem tudo para ser o melhor desempenho da sua carreira, Whiterspoon nos apresenta a uma Madeline verborrágica que demonstra segurança, controle e protagonismo no seu grupo de amigas, mas que em casa deixa aflorar toda a sua insegurança como mãe, mulher e esposa. Por ser a personagem mais expansiva do trio central e aquela que aparentemente tem muito pouco a esconder, a Madeline da Whiterspoon tomou conta de  Somebody’s Dead, mas suas colegas não ficaram para trás e prometem render bons momentos nos próximos episódios.

Os mistérios em torno da relação de Celeste e do seu marido Perry, por exemplo, tornam a interpretação de Nicole Kidman uma das maiores incógnitas a serem desvendadas pelo público. Admirada pelas outras mães, Celeste parece viver aos olhos externos uma dinâmica familiar de “comercial de margarina”, mas os termos do seu casamento parecem justificar o seu ar artificial, distante e melancólico publicamente, há algo muito errado na maneira como Perry tem tratado a esposa e ela está começando a perceber isso. A Renata de Laura Dern, por sua vez, parece viver assolada pela cobrança da perfeição e entre as mães é àquela que tenta equilibrar uma bem-sucedida trajetória profissional com os cuidados da sua filha, mas existe algo por trás da maneira como encara o comportamento das outras mulheres, principalmente o de Madeline, que, ao que tudo indica, culminará no conflito central da minissérie. As faíscas e provocações entre Dern e Whiterspoon, por sinal, foram os momentos altos desse primeiro episódio. Shailene Woodley, por sua vez, parece ser o elemento cujo histórico é o mais previsível de se identificar. Ao que tudo indica é um daqueles casos de jovem mãe solteira, mas ela está tentando refazer a sua vida em uma outra cidade. Por qual motivo? E seu filho Ziggy? Há alguma razão para seus problemas de socialização?

Com todas estas peças faltando, Big Little Lies conseguiu em seu primeiro episódio cultivar muitas dúvidas na cabeça do público e instigá-lo a retornar ao universo daquelas fascinantes mulheres interpretadas por atrizes acima de qualquer suspeita. Mais do que uma trama policial, o assassinato é oferecido ao público como o desfecho dramático de um barril de pólvora que o precedera, Big Little Lies parece ter uma preocupação com a psiquê dessas mulheres, uma abordagem cujo objetivo ainda parece incerto mas que promete acenar para o público pelos próximos episódios. Com um texto de qualidade, um elenco desse calibre e personagens com muito potencial, a minissérie é um acerto dos bons dos seus envolvidos.

Todo domingo, às 23h, na HBO. 

Assista ao trailer da minissérie: 

 

Wanderley Teixeira418 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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